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Fale, fale, fale, fale, fale…

Há coincidências fascinantes. Uma delas foi protagonizada no final do ano passado por um anúncio de uma operadora de telemóveis e pelo romance Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina (Lisboa: Caminho, 2003). Vale a pena recordá-la no momento em que, como na quinta-feira passada divulgava a agência Zenit, o episcopado francês propõe aos católicos uma pouco comum renúncia quaresmal.

N/D
29 Fev 2004

O anúncio dizia exactamente: “Fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale, fale”. Este insistente “fale”, setenta e uma vezes repetido, apareceu a toda a largura de algumas das páginas de vários jornais de Dezembro.
E como se tivesse sido escrito para responder a este texto publicitário, o romance de Mário de Carvalho, que chegou às livrarias na mesma ocasião, observava: “Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão”.

“Fale até não poder mais”, ordenava o anúncio aos utilizadores de telemóveis. E o narrador de Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina parecia retorquir: “Telefones móveis! Soturna apoquentação! Um país tagarela tem, de um momento para o outro, dez milhões de íncolas a querer saber onde é que os outros param, e a transmitir pensamentos à distância”.

O primoroso romance de Mário de Carvalho começa, aliás, com um justo retrato do Portugal que fala, fala. “Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu do Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações”.

Afirma o narrador que “falam os médicos, os notários, os empreiteiros, os varredores, os motoristas, os professores e toda a lista de profissões da estatística e não há corporação que fique de fora neste zunzunar do paleio, vendedores de automóveis, mediadores de seguros, sapateiros que passam a vida a cantar, empregados de mesa, agentes da autoridade, doentes dos hospitais, operadores imobiliários, empregados forenses, e também engenheiros, sem-abrigo, vagabundos, telefonistas, padeiros, patinadores, engraxadores e vândalos. Imigrantes provindos de países sombrios aprendem aqui a soltar as línguas, aderem ao velho ofício de dar à taramela, por isto e por aquilo, por tudo, nada. Passam-se dias, meses, anos, remoem as depressões, adejam os perigos e o país a falajar, falajar, falajar”.

O “estado frenético de tagarelice” não é algo especificamente nacional, mesmo que, entre nós, a condição linguareira pareça ter atingido uma dimensão paroxística. Por certo, julgando identicamente que “o falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações”, o episcopado francês apresentou uma proposta quaresmal invulgar: fazer um “jejum de palavras supérfluas”.

A Quaresma pode representar uma oportuna ocasião para eliminar as “palavras inúteis”, para “falar de outra maneira” e para fazer silêncio. “O nosso mundo anda terrivelmente verbalista”, afirma o episcopado francês que, com razão, julga que “somos constantemente inundados por palavras que perderam sentido e força”. Renunciar às “palavras inúteis”, falar menos, desligar o rádio e a televisão, transformados em “ruído de fundo” da vida quotidiana, saborear o silêncio, são avisados conselhos que todos – católicos, animistas, judeus, muçulmanos, agnósticos ou ateus – podem aproveitar em qualquer altura do ano. O silêncio tem ainda a suprema vantagem de ser um bem gratuito. Pelo menos, por enquanto.




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