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O Escritor nasce ou faz-se?

Aquando dos meus estudos superiores, tive, entre muitas outras cadeiras, a de “oratória ou género literário oratório”. O respectivo professor, ao leccionar, teórica e praticamente, ia fornecendo normas para o bom desempenho da “arte oratória”, ao mesmo tempo que citando um provérbio popular, ia dizendo e repetindo que “o poeta nasce, mas o orador faz-se”. Queria com isso dizer que, se o poeta o é já de nascença, pelo contrário, o orador, para o ser cabalmente, terá de aprender e aplicar certas normas sobre o “dizer” mas sobretudo sobre o “modus dicendi”…

N/D
28 Fev 2004

Hoje, à distância e após certas e variadas reflexões, duvido que as coisas sejam mesmo assim. Seria um Homero mais natural que um Demóstenes, ou um Virgílio mais natural do que um Cícero?
Tudo isto tem a ver com a explicação da produção artística. Sempre o Homem considerou os artistas como uns privilegiados em dotes recebidos gratuitamente. Na “época clássica”, a génese artística era devida às “musas” ou “ninfas”, divindades que habitavam bosques, rios e mares, se apossavam dos artistas e os inspiravam eficazmente na arte do Belo…

O nosso Camões, fingindo talvez acreditar no que diziam os clássicos, também suplicou às ninfas, por mais de uma vez, mas sobretudo em a Invocação de “Os Lusíadas”: – “e vós, tágides minhas, dai-me… dai-me”…

Mais tarde, já na “época romântica” recorria-se chamado “génio”, inato ao artista…

Que pensar de tudo isto? Talvez que o muito esforço e trabalho, necessários a qualquer produção artística, contam também com certos dotes materiais, ou propenções e facilidades inatas. “Engenho e arte” de que falava Camões, colaboram certamente nos produtos artísticos.

Sei de correntes que não aceitam os dotes inatos; uns, porém, admito-os. Por mais que se treine, Pelé, Figo, Eusébio tinham algo mais…

A tal respeito em “Paris-Match” de Janeiro do ano corrente, o grande escritor francês da actualidade Pierre Pelot subscrevia um importante artigo “Le jour où je suis devenus écrivain”. Aí fazendo diversas considerações diz o autor: – “O dia em que me fiz escritor não existe, não existiu nunca, ou, a existir, coincide com o meu dia de nascimento”. E continua por aí fora insistindo em algo que tem que ser tão natural como o próprio sangue. “Tornar-se escritor exige um processo de longo fôlego (…), reclama um sopro e sangue também”.

Lendo o artigo, fica-se com a ideia de que, de certa forma, o escritor já o é, ao nascer, embora possa e deva evoluir com a vida… Esta será – e desde o berço, a grande mestra e inspiradora…

Que tal, amigo leitor? Concordas? Discordas? Distingues? Talvez o assunto seja demasiado complexo para um artigo…




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