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Mais um amigo que partiu – Para sempre? Talvez não

Homem de Igreja e de muita fé. Nasceu por volta da Implantação da República, em 1910. Ainda alheio às monarquias absolutas de inspiração divina e sem memória dos governos de Monarquia Constitucional.

N/D
27 Fev 2004

Restituída, então, a soberania ao povo, foi, contudo, a luta fratricida pelo poder, que desembocou novamente, em 1926, numa nova governação à margem dos princípios democráticos. Começava aí o Estado Novo com o 28 de Maio. E era de Braga que partia o Marechal Gomes da Costa a caminho de Lisboa.
Assim, esvaída a esperança de uma democracia pluralista enraizada no povo, fica o meu amigo privado de participar com o seu voto numas eleições livres. E assim foi-se acomodando, como tantos, cansados já de uma anarquia que hoje se reconhece ter travado um desenvolvimento crescente da economia portuguesa, dentro de uma democracia económica, cultural e social.

Assim o fizeram os nossos países vizinhos. Mais tarde, juntamente com seu dilecto irmão de sangue e na comunhão dos mesmos princípios e sentimentos, formaram ambos, juntamente com tantos outros, o núcleo forte de apoio a esse gigante que foi António Maria Santos da Cunha. A política agora dos dois irmãos era tão-somente pegarem ao pálio desse extremoso bracarense, juntamente com os demais da mesma cor, no desenvolvimento desta cristãmente tradicionalista cidade dos arcebispos. Baluartes também na defesa da sua Igreja. Por natureza recebeu de braços abertos o 25 de Abril, na esperança de um Portugal livre, não sem uma pontinha de revolta pela ousada tentativa de desembocar de novo este pobre país, numa ditadura de sinal contrário.

Tais os desastrosos devaneios até ao 25 de Novembro. Era agora um homem mais feliz ainda. De uma felicidade espelhada no seu rosto por um colorido e cativante sorriso aberto a toda a gente. E era com os abraços abertos, e a sorrir sempre, que se dirigia a mim quando, ainda longe, me vislumbrava. Era de uma personalidade vertical. Debatia com entusiasmo os bons princípios que passavam por uma família sem mácula, uma solidariedade franca e aberta.

Terno, afável para a esposa filhos, netos e genros que muito prezava. Homem de compostura exemplar. Toda a vida, mas mais nas últimas décadas, viveu para a prática do bem. Antes de acamar, e isso aconteceu há menos de três meses, era ele quem fazia ainda as actas do Asilo de São José que tanto lhe deve. Sem ter sido um menino bem com o privilégio de coçar as cuadas das calças pelo Liceu, e muito menos pela Universidade, debatia com entusiasmo temas profundos ligados ao desenvolvimento do país e mais ainda da sua querida Braga que tanto amava.

A conversa entre nós começava sempre pela análise que fazia aos meus escritos que lia com furor e fervor. Um belo dia chega-me pelo correio uma carta meticulosamente redigida quanto à forma e substância. Tão bem escrita que o meu director deu-lhe honras de publicação nas páginas deste Jornal, do seu Jornal. A sua preocupação dia-a-dia era deitar-se à noite de cabeça tranquila, sem nada que magoasse a sua consciência social. «Devemos praticar sempre que possamos boas acções, depois pode não haver céu para outros mas há para nós com certeza». Isso que tanta vez me segredou com entusiasmo.

Numa data recente, vendeu uma quinta que tinha há muitos anos, trabalhada por um caseiro há já muito, considerado da família. Teve muitos pretendentes mas, mesmo por preço mais baixo, escolheu aquele que lhe prometeu aguentar o caseiro enquanto fosse esse o seu desejo. Falava muito comigo.

Encontrávamo-nos ora à saída, ora à entrada da sua casa, abaixo do Gold Center. Muitas vezes à chegada da sua quinta na aldeia. «Ainda conduz, Senhor João. Resposta pronta: Fui há meses revalidar a carta e disse: «Senhor doutor não me tire a carta que me faz muita falta para ir buscar uns pipitos de vinho, batatas e cebolas, coisas do campo, muito apreciadas na cidade». E já tinha dobrado o cabo dos noventa anos de idade. Quando parte um amigo com o qual nos identificamos, é sempre um bocado de nós que parte com ele também. Claro que você, meu grande amigo João da Silva Vila Verde, concorda comigo. Aqui fica cumprida a promessa de escrever sobre si, se acaso, como aconteceu, lhe viesse a sobreviver.




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