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Cultura e Fé…

Emanuel Kant, cujo bicentenário da morte decorre, e tem levado a um novo impulso do seu estudo, formulou três questões, que depois foram retomadas pelo pintor Gauguin e estão na igreja de Santa Praxedes em Roma: quem somos? donde vimos? para onde vamos?

N/D
27 Fev 2004

A nossa cultura tornou-se anémica na hipertrofia dos meios que marcaram mal uma hipertrofia dos fins, ou objectivos, e a abate «como uma omelette que partiram em dois». O homem não pode por muito tempo respirar, quando a sua atmosfera se reduziu ao intermundano, cortado da sua origem divina e privado de um desígnio eterno.
Reconhecer que a fé não se prova pela razão não significa que não seja razoável ou irracional. E valorizar o sentimento em detrimento da razão é uma forte tentação para alguns. Por isso é importante saber o que somos, donde vimos e para onde vamos, como conjunto e complexo de inteligência e de vontade. Como diz Poupard, para o compreender e viver, é preciso ser consciente de todas as dimensões do ser, num tempo em que a cultura contemporânea aparece como um espelho partido, que fornece do ser humano uma imagem fragmentada e redutora.

Pode dizer-se que a arte tanto como a filosofia, a economia, a ética, a política, e mesmo a teologia, estão em crise, pois as suas questões permanecem no domínio científico. Ora a ciência e a técnica distanciaram-se de outros domínios da actividade humana, de tal maneira que este desvio tornou difícil o diálogo interdisciplinar e pode conduzir a uma catástrofe sem precedentes. Só uma verdadeira paideia, num equilíbrio de razão e sentimento poderá equilibrar a inteligência e reequilibrar o sentimento. Será pois salutar a atitude de alguém que se maravilha perante o universo, não numa atitude maniqueísta, mas de admiração pelo cosmos. O discurso sobre Deus não terá outro ponto de apoio senão na experiência humana, no mundo cósmico e na sua beleza.

Isto levará a uma atitude de agradecimento, contemplação e deslumbramento num diálogo, em que o homem explora a verdade em todos os seus aspectos: «Fé e razão tornam-se duas asas que permitem ao espírito humano elevar-se na contemplação da verdade». Trabalham em troca reciprocamente fecunda. A teologia tira então proveito das ciências para não cair num entusiasmo simplesmente apologético e liberta o conteúdo da fé de elementos espúrios sócio-históricos acumulados. A ciência, por sua vez, aproveita da teologia para evitar uma exploração de si mesma e voltada apenas para o crescimento ou em próprio proveito.

Por isso, João Paulo II recordou aos homens da ciência, em Hirochima: «Ciência sem consciência não é senão a ruína da alma, hoje como ontem. E o homem de ciência não ajuda verdadeiramente a humanidade se não conserva o sentido da transcendência do homem sobre o mundo e de Deus sobre o homem». O homem é um fim e não o meio, e cada cristão terá de ser um profissional do cristianismo apto a dar conta da esperança que o anima, em busca da verdade, da felicidade e da sabedoria, como dois pilares, caminhando numa boa marcha. Para a ciência, conhecer é explicar. Para a fé, é amar. O homem em busca da verdade e do amor tem necessidade, por sua vez, do amor, da verdade e da verdade do amor «que move o céu, a terra e as estrelas» (Dante).

Assim se compreende que até a literatura levará à verdadeira compreensão do inefável como o poético ao epifânico, tal como teofania reveladora do que as palavras encobrem na perda de sentido pelo uso do quotidiano, tornando-se arte e símbolo.




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