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«Aqui jaz um homem bom»…

É nos momentos de desânimo que o nosso pensamento mais se eleva. Aí meditamos sobre nós, o mundo que nos rodeia e o nosso próprio destino final. Existem, porém, momentos transcendentes, diferentes; então é no silêncio, no recolhimento ou na fé, quando ela nos toca, que o valor da nossa vida terrena nos parece fugir como grãos de areia que correm através dos dedos das nossas mãos.

N/D
27 Fev 2004

Um dia num funeral, durante o elogio fúnebre, o reverendo comparou esse caminhar na vida com uma lápide simples que, num determinado cemitério, referia: «aqui jaz um homem bom».

Registei a frase, não pelo facto em si mesmo, mas pelo significado que julguei estar por dentro da intenção e pela realidade que está implícita quando chegamos ao fim do caminhar.

Afinal, todos nós ajoelhamos perante a morte; sentimos ser o destino natural, dizemos até estarmos preparados e, pensando bem, esse desígnio tão natural acaba sempre por gerar em nós a surpresa.

Questionar sem tentar compreender ou estudar a questão, revela apenas ou também a nossa rebeldia em aceitar o que por comodismo ou teimosia rejeitamos no imediato. Porém, as horas passam, os dias sucedem-se e num minuto perdemos todos os argumentos até então irrefutáveis, perante os outros. Somos pequenos.

Mas afinal o que é um homem bom? Imagino o homem sem nome, simples e com boas acções, vivendo integrado no todo social, capaz de se sacrificar ou auxiliar o próximo desinteressadamente, desprendido dos bens materiais, preocupado com os outros, vivendo com rectidão, amigo da justiça e da paz, companheiro, pai, filho, sempre preocupado com a família e amigos. Aquele que é capaz de dizer sempre «estou aqui»; aquele que surge nos piores momentos e desaparece quando não faz falta.

Ter virtudes, ser humano e solidário. Talvez este homem mereça uma lápide simples, que deixe como recordação apenas e sem nome o epitáfio: «Aqui jaz um homem bom». Vale a pena reflectir no simbolismo da frase e na sua actualidade perante um mundo tão controverso que torna o homem insensível, por vezes, ao mundo que o rodeia.

Os poderes de hoje são afinal reduzidos a nada no amanhã. Ao analisar a realidade, somos moralistas, porque a moral afinal não corrompe o homem e ajuda-o a reflectir sobre pequenos e grandes problemas. Reagir à adversidade enfrentando a vida tal como é, será um dos caminhos possíveis para nos tornarmos melhores.

Não confundir nunca a arrogância com a riqueza porque são coisas diferentes, que raramente coincidem na mesma pessoa. Quando o final do caminho estiver próximo, os sinais hão-de surgir; a reflexão, meditação e arrependimento estarão presentes, mas em turbilhão, serão atenuantes para os comportamentos, sem contudo justificarem uma lápide, simples e significativa: «Aqui jaz um homem bom».




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