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Vem aí a Quaresma…

Inevitavelmente, vamos entrar na Quaresma. O calendário é peremptório: na próxima quarta-feira começa este tempo, que a Igreja reclama que seja de penitência e de oração mais intensas. E com toda a razão: se havemos de nos alegrar com a ressurreição de Cristo, que celebramos na Páscoa, a verdade é que temos antes de passar pelo dia triste da Sexta-feira Santa, em que, na data exacta do que aconteceu há quase dois mil anos, Jesus foi crucificado, de forma violenta e crudelíssima, no monte do Calvário, junto de Jerusalém.

N/D
24 Fev 2004

Certamente que este período litúrgico faz mais sentido para quem é cristão e vive da sua fé em Jesus, um carpinteiro galileu, que, de acordo com Fernando Pessoa, não consta que tivesse biblioteca, mas deixou para reflexão dos homens de todos os tempos a maior história de amor que conhecemos.
Dar a vida pelos seus amigos e pelos seus ideais, cumprir até ao fim uma tarefa-missão de que se sente incumbido, eis o que qualquer homem, independentemente do seu credo de fé, pode entender e meditar. Sobretudo quando os ensinamentos que lhe deixa são simples, não constam de grandes teorias complexas, nem exigem muito esforço intelectual para compreender.

Pelo contrário, como observavam os que ouviam com avidez as suas pregações, o tal carpinteiro falava como quem tinha autoridade e não como os grandes intelectuais do seu tempo e do seu ambiente, que discutiam muito, impunham regras sobre regras para cumprir, levantavam escrúpulos às consciências mais sensíveis e, no fundo, acabavam por não convencer por lhes faltar a imprescindível autoridade.

Por isso, numa altura em que tantos e tantos crânios iluminados de cientistas, filósofos, teólogos, homens de letras e da cultura, expendem como nunca os seus pareceres, que frequentemente só uma elite privilegiada consegue enxergar, este tempo de reflexão da Quaresma pode ser o momento ideal para cada um entrar dentro de si, pensar no que é e em como está, e perguntar-se a si mesmo sobre o significado da vida deste carpinteiro de província, que contou histórias espantosamente aliciantes do comportamento humano e da sua relação com Deus.

A todos recomendou que se amassem uns aos outros como ele os amou. E já que o amor mais veemente é aquele em que o seu protagonista morre, as autoridades legais do tempo, políticas e religiosas, decidiram matá-lo sem remissão numa cruz ignominiosa, entre dois ladrões, por considerarem que a sua mensagem era, ao fim e ao cabo, subversiva e lesiva do bem comum, ou então, como agora se defende, “politicamente incorrecta”.

Talvez de modo inconsciente, reforçaram a autoridade deste condenado, pois opinava que a maior prova de amizade é a de quem dá a vida pelos seus amigos. Ele tinha previsto com meridiana antevisão, que havia de morrer e sofrer muito em Jerusalém, a fim de que todos os homens de todos os tempos – os seus grandes amigos – pudessem de novo ser felizes eternamente. E com um grau de felicidade tão perfeito e indescritível que um discípulo, depois de ter sido seu perseguidor encarniçado, sobre ele observava: «eu tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que se manifestará em nós».

Como prévio aviso: quem nunca tenha lido as quatro histórias admiráveis sobre a sua vida que se espraiam pelos Evangelhos, não deve chocar-se com certas frases saídas dos seus lábios, como por exemplo: «Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração». Habitualmente, quem é humilde não diz isso de si mesmo. Não esquecer, porém, que a humildade e a verdade andam juntas e bem unidas. E isso mesmo se poderá verificar da vida do carpinteiro galileu.

E, já agora, que não fechem o livro se o ouvirem proferir algumas afirmações ainda mais contundentes, ao mesmo tempo que contava, com a maior das simplicidades, histórias cativantes. Sobre um filho que foge de casa e depois regressa, arrependido e completamente arruinado; um homem bom que salva a vida a um desconhecido que fora assaltado e, depois, lhe paga, por mera generosidade, os tratamentos do tempo para que se cure completamente; o pastor que vai à procura, por montes e vales, da ovelha tresmalhada, etc. Pois este mesmo carpinteiro, ao tratar da sua relação com Deus, não hesita em dizer: «eu e o Pai somos um só». Ou então, quando considera a sua existência, referindo-se ao patriarca Abraão, que viveu cerca de mil e novecentos anos antes de si, não hesita em confessar: «antes de Abraão, eu sou».

Desvelando um pouco o mistério: este Jesus carpinteiro tem consciência de que é Deus e homem. Daí que o observador atento da sua vida possa compreender melhor como Deus nos ama tanto, ao saborear o amor incondicional pelos seres da nossa espécie, que jorra do coração humano de Cristo.

A Quaresma dá muito que pensar…




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