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Quando sobram os ossos

Nós gostamos da política pelo seu lado mais nobre que é, como todos sabem, estar ao serviço dos interesses das populações (res publica). Não gostamos da política quando ela se esgota e perde nos meandros da maledicência, do insulto soez e da suspeita sistemática. É da ciência política desacreditar o adversário. Há mesmo equipas de investigadores do passado para descobrirem os pés de barro do outro, e, se alguma coisa encontram, trazem-na a público com uma crueza e ferocidade de matilha.

N/D
23 Fev 2004

Muitas vezes nem as intimidades respeitam. E servem-nos estas carnes podres; e nós, sempre abutres, deliciamo-nos com o banquete. Uma vez abutre, abutre toda a vida. Muito prontos a acreditar nas fraquezas, sempre cépticos para as virtudes: balança de pratos viciados.
Temos que convir que é assim que se faz política. É assim mas ninguém nos obriga a gostar. Não gostamos mesmo nada que se advoguem soluções governativas para as dificuldades que se não resolveram enquanto se foi governo. De igual maneira também não podemos aceitar que se evoquem indeterminadamente as pesadas heranças para desculpar os insucessos da acção governativa. Ao ouvirmos as intervenções na Assembleia da República dá-nos a impressão de que o PSD/CDS ainda não é governo e de que o PS não foi governo há dois anos. É por estas e por outras que os portugueses se desiludem cada vez mais com os políticos. A política portuguesa é feita por alguns solistas e um grande coro. No hemiciclo, por exemplo, uns ficam sentados, os outros cantam a solo.

Nas câmaras municipais também há solistas e há quem faça parte do coro. Foi para isso que se restaurou a democracia, em Portugal? Para haver um napoleãozinho em cada presidente de câmara?

Dizem-nos que há vereadores que nem nos varredores mandam? Que só estão autorizados a fazer relatórios. Que é o presidente quem tudo decide. Será isto verdade ou mero pesadelo? Os portugueses querem que a política seja um somatório de actos democráticos. Vêem, com muita apreensão, que muitas destas coisas estão a apodrecer e não gostam do cheiro. Por isso pedem uma nova política, deixando na história do passado as velhas manhas; acabem de vez com as estafadas promessas do arroz de quinze. Caramba, nós já não somos os ceguinhos do pós-25 de Abril. Em cada português há uma cabeça que pensa e julga. Por exemplo, reduzam o número de deputados ao mínimo competente. Troquem a quantidade pela qualidade.

Cidadãos honestos dão políticos honestos. O Dr. José Hermano Saraiva disse, há dias, na televisão do Estado, esta coisa: «no meu tempo de deputado tive de optar entre o meu vencimento de professor (que era de 4100$00) e o de deputado (que era de 4000$00)».

Dá que pensar! Hoje também poderia ser assim? E quem era o professor que trocaria a fatia pelo bolo? Os das profissões liberais ganham pouco? A notoriedade que lá ganham é, ou não é, um bom investimento a médio e curto prazo? Um bom profissional liberal não troca o seu consultório por uma cadeira de figurante do Parlamento. A verdade é só esta: quando o lugar é honroso e rendoso, são mais os cães que os ossos; quando é apenas honroso, os ossos são tantos como os cães, mas, quando é apenas res publica, os ossos são mais que os cães. Se assim fosse só teríamos bons políticos. Mas a quem interessa isso?




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