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Carnaval: (des)mascarar a tristeza ou a alegria?

Ouve-se o rufar dos tambores – que aqui em Sesimbra se começam asentir já desde o início de Novembro – com mais intensidade, respirando-se uma atmosfera de festa, de folia e de alguma irreverência.

N/D
23 Fev 2004

Não deixa de ser sintomático que o Carnaval tenha ganho tanto fervor – nalguns casos imitando os ares cálidos dos trópicos no hemisfério sul – em localidades mais ou menos fechadas. Já lá vai o tempo em que as “partidas” carnavalescas serviam para provocar vizinhos ou amigos, mesmo que isso chegasse a roçar algum ajuste de contas por mazelas (claras ou subentendidas) deixadas pelo relacionamento de proximidade ao longo do ano.
Com o crescente anonimato e desinteresse das pessoas umas pelas outras foram surgindo associações, clubes, escolas ou grupos, que se empenham em criar enredos, inovar (quando isso ainda for possível) músicas, inventar letras onde as diferentes vertentes – sociais, regionais, culturais, profissionais ou políticas – se entrecruzam para desfilar ao ritmo de samba, em roupagem (mais ou menos) despida e em carros alegóricos de sabor abrasileirado.

Se nos tentarmos lembrar veremos que há imensas localidades onde o Carnaval é atractivo de multidões, tanto no “domingo gordo” como na terça-feira de entrudo: Madeira, Loulé, Sines, Sesimbra, Torres Vedras, Alcobaça, Mealhada, Ovar, Estarreja… Eis alguns dos palcos de desfile do “corso” (ou com qualquer outra designação!), numa comédia mais ou menos nacional, com figuras, figurinhas e figurões extraídos da televisão, da telenovela ou do mundo da moda, do desporto, do jet-set… e meramente populares.

O que faz correr tanta gente para ver os desfiles? Será a arte? Será a novidade? Será o bairrismo? Poderá ser a necessidade de folia ou de sacudir a “crise” – esse fantasma anónimo, mas com tentáculos de sonho à mistura – do país, da economia ou da verdadeira alegria?

É quase decorrente, no contexto do Carnaval, falar na máscara que se põe ou se tira, das fantasias com que uns tantos se revestem, assumindo papéis mais ou menos esconsos, divertindo-se na paródia de que “a vida são dois dias, o carnaval são três; viva o carnaval”!

Às vezes a imaginação está bastante em saldos: com facilidade poderemos encontrar pessoas a usar máscaras, a vestir-se ou a assumir figura do mais banal até ao patético, se não mesmo a recorrerem a vestes de natureza religiosa, de âmbito policial ou mesmo de teor macabro. Por vezes o bem senso entra em eclipse. Talvez seja preciso usar mais a imaginação, pondo a funcionar os neurónios da subtileza da correcção de costumes de antanho, tão ao gosto das canções de escárnio e maldizer da nossa literatura e do teatro vicentino.

Mas não cheiravam a carnaval certas manifestações pró-aborto? Não fará parte da comédia alguma comunicação social ávida de escândalos? Não revestirá a linguagem do “faz de conta” tanta quezília do mundo do futebol? Desmascaremos a tristeza ao menos com certos laivos de alegria… à pressa!
O Carnaval está aí e por estes dias em força. Talvez valha a pena vivê-lo com a intensidade possível – dentro do respeito mútuo – para podermos entrar com força e significado na Quaresma a seguir.




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