Fotografia:
O despotismo

Ainda está bem fresca na memória de todos os que a viram a passagem da procissão toda folclórica, colorida de bamboleantes cartazes e bem enxameada de fortes clamores de vozes. E integrada nela, deambulava uma boa mão cheia de senhoras com os punhos cerrados em braços bem erguidos, a reclamarem, inflexivelmente, a legalização da prática abortiva e, consequentemente, a sua despenalização.

N/D
22 Fev 2004

A consequência parece boa, pois sabe-lhes a libertação. À volta de suas cinturas, cobrindo-lhes a barriga, caía um avental de papel branco com estes dizeres, escritos com tinta preta e bem retinta: «a barriga é nossa! E quem manda em nossa barriga, somos nós!» E, excepcionalmente, uma outra escrevera o mesmo, mas por cima da pele da barriga, fazendo do umbigo a pinta sobre o “i”.
É de sublinhar, aqui, a vermelho, o evolar-se dum nevoeiro, como um fumo de revolta, de raiva e de rancor, a rociar o “quem manda em nossa barriga”. Porque este último dito – “quem manda em nossa barriga, somos nós” – parece cheirar a vinagre com um travo a despotismo. Vou ver se me faço compreender.

E na cauda da procissão, como é da tradição das nossas festas religiosas, vem o pálio, mas aqui, por baixo de seu dossel, não vinham nem o Santíssimo, nem as autoridades da terra, mas sim, e de mãos dadas, os manipuladores e os amotinadores a desfiarem ladainhas de imprecações e a ribombarem trovoadas de granizo, a fim de apagarem as labaredas dos desajustamentos sociais. Mas calma, todo este aranzel de vozes era só para ver o efeito. Estou precisamente neste momento a ver um a cerrar os dentes e um outro com os dentes entre a língua. Incongruências!… incongruências!

Gravada está, indelevelmente, na raiz de nossa natureza humana, isto é, do nosso organismo humano, ou seja, do nosso ser profundo, concreto e real, a obrigação de cumprir, por parte da pessoa, inteligente e livre, este pregão: o da necessidade profunda de conservação da vida existencial do indivíduo e do seu bem-estar. E tudo o que for contra este pregão, pregão da nossa natureza humana, assumido e transcendentalizado por Cristo, cheira a vinagre e tem um sabor a despotismo.




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