Fotografia:
Admirável Mundo Actual

É um livro que vale a pena ler. Intitula-se Admirável Mundo Actual – Dicionário pessoal dos horrores e das esperanças do mundo globalizado (Lisboa: Terramar, 2004) e quis o destino que o autor, o brasileiro Cristovam Buarque, um prestigiado professor universitário de Economia, tivesse sido demitido pelo Presidente Lula do cargo de ministro da Educação quando, há cerca de um mês, estava em Lisboa, onde se deslocara para apresentar a obra.

N/D
22 Fev 2004

Antes da breve passagem pelo Ministério da Educação, Cristovam Buarque foi funcionário do Banco Interamericano de Desenvolvimento em Washington, reitor da Universidade de Brasília, presidente da Universidade Paz das Nações Unidas e governador do Distrito Federal do Rio de Janeiro. O extenso currículo regista ainda a participação em actividades comunitárias de educação popular patrocinadas por D. Hélder Câmara, bispo do Recife, e a criação da Organização Não Governamental “Missão Criança”.

Admirável Mundo Actual é um livro útil para compreender o mundo em que vivemos e imprescindível para conhecer o Brasil actual. O dicionário tem alguns conceitos fortes. O de “apartação” é um deles. A palavra é usada, num sentido social, para designar a separação das pessoas por classes. «O mundo contemporâneo é caracterizado ao mesmo tempo pela integração mundial e pelas desintegrações nacionais. Uma cortina de ouro serpenteia pelo mundo, cortando países, separando os ricos de todo o mundo dos pobres de cada país formando uma apartação à escala mundial. A apartação dá-se dentro de cada país, mas é um fenómeno internacional, dividindo o Planeta num primeiro mundo internacional dos ricos e um arquipélago de pobres, um gulag social internacional. Os ricos iguais, não importa o país onde nasçam ou vivam, os pobres diferentes, ainda que dentro de um mesmo país».

A “apartação” é o estado civil do neo-liberalismo, a sua verdadeira natureza. É por isso que, «com a apartação, a miséria é aceite como algo natural». Neste século, em nome da globalização, regista Cristovam Buarque, estão a ser cometidos inúmeros crimes – como os «da exclusão social, da morte de imigrantes, da fome generalizada ao lado de um excesso de produção de alimentos, da desarticulação da economia e de culturas, da tolerância para com doenças que já poderiam ter sido curadas, do extermínio de crianças» – que favorecem um reduzido grupo de indivíduos.

«Antes da apartação os homens indignavam-se diante da miséria alheia», observa Cristovam Buarque. Hoje, poucos se parecem incomodar, por exemplo, com a escravatura de pessoas. É por isso que o documento que o relator da ONU para o Tráfico de Crianças, Prostituição e Pornografia apresentou na quinta-feira passada, em Genebra, que confirma que Portugal é um dos principais destinos das rotas de tráfico de prostituição de crianças, adolescentes e mulheres, com origem no Brasil, teve, entre nós, uma reduzida repercussão.

E, no entanto, o relatório intitulado Pesquisa Nacional sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes, que indica que Portugal está em quinto lugar na lista dos países que mais atraem as imigrantes oriundas sobretudo das regiões brasileiras mais pobres, devia, pelo menos, envergonhar- -nos um pouco. É sempre penoso saber que abundam os portugueses que exploram sexualmente jovens raparigas que, diz o documento, têm, maioritariamente, entre 15 e 25 anos e 30 por cento, pelo menos, têm entre 15 e 17 anos e que estas vítimas da pobreza, das desigualdades sociais e da força do crime organizado estão também ao serviço da prosperidade económica de vários dinâmicos “empresários” da noite portuguesa.

No Admirável Mundo Actual, fala-se dos anúncios que oferecem prostituição infantil – designando as crianças por «bezerras ou ninfetas de praia» – para lembrar que «essa abordagem tão corriqueira a um assunto tão obsceno seria impraticável se as prostitutas infantis fossem tratadas pelos governantes, editores, donos dos jornais, jornalistas e leitores como crianças semelhantes aos seus filhos». Também neste domínio, a “apartação” torna natural «um assunto tão escabroso». A psicologia do tempo da “apartação”, exemplifica Cristovam Buarque, faz com que seja natural que uma notícia, como a que foi dada por uma rádio do Rio de Janeiro, dê conta que, depois de um tiroteio, tenham morrido «duas pessoas e um mendigo».

O livro de Cristovam Buarque, como diz o título, fala de «horrores» e também de «esperanças». E fala, sobretudo, da necessidade de evitar a indiferença perante o sofrimento e a miséria.




Notícias relacionadas


Scroll Up