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Quarta-feira de Cinzas

Ciclicamente, após a quadra carnavalesca, aparece no Calendário, a Quarta-feira de Cinzas. Este ano ocorre no próximo dia 25.

N/D
21 Fev 2004

O Carnaval é uma época de folguedos; em Portugal usa-se o termo Entrudo, derivado de introitus, entrada, neste caso, na Quaresma. Alguns fazem derivar a palavra Carnaval de Carne vale (adeus carne!) ou de carne levamen (supressão da carne), indo buscar essa expressão a S. Gregório Magno, (século VI), que chamou ao domingo anterior à Quaresma (popularmente conhecido por Domingo Gordo), “Dominica ad carnes levandas”, referindo-se ao uso de não comer carne em alguns dias da Quaresma.
Durante muito tempo a prescrição de não comer carne durante alguns dias da Quaresma, feita pela Igreja Católica, foi louvada pelos que reconheciam que os excessos de comer e beber durante o Carnaval precisavam de uma purificação, obtida por uma certa renúncia na comida: abstinência de carne e diminuição da quantidade de alimento ingerido (jejum).

Actualmente a Igreja dá à renúncia um carácter mais social, procurando que nesse período de tempo que prepara a grande festa da Ressurreição de Jesus – a Páscoa – os católicos procurem ser sóbrios na alimentação, encaminhando o que poupam para ajudar os mais carenciados. Não vive o espírito quaresmal aquele que, em Sexta-feira da Quaresma não come carne por tradição, mas come uma boa lagosta ou qualquer outro marisco de preço exorbitante.

Falar de «renúncia» nos nossos dias, eivados de materialismo e voltados só para a procura, a qualquer custo, do bem-estar, pode levar à troça, ao sorriso incrédulo ou à pergunta maliciosa: “ainda há quem se atenha a essas velharias caducas?”. Porém, quantos e quantas que usam essa arma da troça, fazem sacrifícios bem mais penosos, não por motivos de saúde, o que é de louvar, mas para manter a linha, atingir certas marcas exigidas pela prática desportiva, como ginástica, natação, etc.

Mas a renúncia apesar do seu valor não é o essencial para a preparação da grande festa da Páscoa. A Constituição conciliar sobre Sagrada Liturgia recomenda: “Ponham-se em maior realce, tanto na Liturgia como na catequese litúrgica, os dois aspectos característicos do tempo quaresmal, que pretende, sobretudo, através da recordação ou preparação do Baptismo e pela Penitência, preparar os fiéis, que devem ouvir com mais frequência a Palavra de Deus e dar-se à oração com mais insistência, para a celebração do mistério pascal” (SC n.° 109).

Pelo Baptismo passámos a ser membros do Corpo Místico de Cristo, mas quando perdemos a graça baptismal dispomos do Sacramento da Penitência para a recuperar. Opera-se em nós uma «conversão» – que é sempre de iniciativa divina, mas que só se efectiva se nós correspondermos.
Se formos superficiais podemos pensar que a Quaresma é um tempo de tristeza e acabrunhamento.

A cor roxa dos paramentos litúrgicos, a ausência de flores nos altares, a supressão da palavra aleluia nas celebrações, a indicação de só usar instrumentos musicais para sustentar o canto, sendo este mesmo impregnado do mesmo sentido de luto, pode induzir-nos nesse erro. De facto não é assim. A alegria tem uma origem espiritual e mora no coração daqueles que amam a Deus e se sentem por Ele amados. “Alegrai-vos sempre no Senhor; repito: alegrai-vos” (Fil., 4-4). Esta alegria é equivalente à felicidade e ao gozo interior que normalmente se manifesta no exterior.

O Santo Padre Paulo VI, na Exortação Apostólica Gaudete in Domino de 9.5.1975, 1. diz: “Como é sabido existem diversos graus desta «felicidade» em sentido estrito, quando o homem, a nível das suas faculdades superiores, encontra satisfação na posse de um bem conhecido e amado (…). Com maior razão conhece a alegria e a felicidade espirituais quando o seu espírito entra na posse de Deus, conhecido e amado como bem supremo e imutável”.

A alegria é compatível com a dor. A uma doente que padecia de grave e dolorosa enfermidade, alguém que a foi visitar perguntou: “Então como se sente?” A resposta siderou-a – com um sorriso entre o dorido e o luminoso a doente respondeu: “Estou bem; dói-me tudo”. Convidada a oferecer os seus sofrimentos a Deus pela salvação de tantos que O não amam, a sua alegria duplicou e só repetia sorrindo, apesar do seu ar cansado pelo sofrimento: “ainda posso ser útil; ainda posso ser útil…”.

“O apelo à conversão (…)”, que Nossa Senhora nos veio fazer, quando das Aparições da Cova da Iria, é o apelo que a Igreja renova constantemente, mas de modo especial neste tempo forte da Quaresma.




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