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Luta de classes

Os media, em particular a televisão – por virtude da imagem – oferecem-nos hoje um espectro social muito singular. Cada vez é mais vasta a gama de intervenientes, entrevistados, depoentes, comentadores, críticos e analistas, com acesso à expressão pública e consequente exposição e julgamento popular. Os actores dos grandes eventos das revistas sociais e de espectáculo, tanto encontram editadas, revistas e aumentadas, as suas glórias e prodígios, como vêem espalhados aos ventos os deslizes, privados ou públicos, ficando quase indefesos para desmentir a aleivosia, como antes o eram para a vanglória.

N/D
19 Fev 2004

Mas as classes vão-se alinhando. É fácil, quase sem oráculo explicativo, saber quem fala: se um político, um médico, um arquitecto, um padre, um jurista, um patrão, um sindicalista. As classes existem e têm uma espécie de música indicativa no falar, na escolha das frases, nas gírias e cassetes.
Deve dizer-se que de todas, possivelmente a classe política é a mais exposta, a mais criticada, e menos merecedora de crédito. As sondagens repetem essa convicção sem explicarem as razões por que tal sucede.

Uma delas será possivelmente a quantidade, forma e conteúdo das prestações dos políticos na praça pública. A opção pela vida política é tida, muitas vezes, como o trabalho possível, à falta de melhor emprego. E também parece ter, como tarefa prioritária, estabelecer a velha dialéctica com os eleitores e os concorrentes – poder ou oposição – de outros partidos. É facto que muitos, políticos e políticas, concorrem para esta imagem. Mas importa recordar que a intervenção política, nomeadamente nos escalões do poder, é uma vocação, um carisma, uma missão, uma forma de serviço à comunidade, para além da realização pessoal.

Muita gente está na vida política na sequência de empenhamentos anteriores na justiça social, nos combates pela cultura e pelos valores marcantes do povo a que pertence. Não é justo reduzir os políticos a mercenários do poder, malabaristas da palavra e manipuladores de massas. Importa dizer que, no contexto democrático e de liberdade plena da informação, tudo está mais exposto e pode, por isso, degenerar, por culpa de alguns, em descrédito de uma classe que é essencial ao desenvolvimento e dignificação de um país. A foguearia do descrédito pode servir desejos recônditos de um qualquer ditador que, esteja do lado de quem estiver, pretende atingir mortalmente a democracia. E pode ser uma nova forma de luta de classes – há a classe política e as outras – para dirimir quem verdadeiramente manda na sociedade.




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