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Língua portuguesa e independência nacional

De acordo com o propósito anteriormente anunciado, vou hoje desenvolver o tema da necessidade da adopção de medidas de protecção e divulgação da língua e cultura pátrias como verdadeira causa estratégica nacional.

N/D
19 Fev 2004

Suponho que ninguém duvida da importância da língua como elemento estruturante da Nação portuguesa e da nossa liberdade como povo. É que, tal como os indivíduos, também os países se afirmam pela sua identidade linguística, veículo sem o qual não seria possível o entendimento entre os seus nacionais nem a percepção dos traços peculiares da cultura ancestral e dos valores históricos e patrimoniais de cada um deles. Era exactamente por terem a noção da importância capital dessa função agregadora que os antigos romanos utilizavam a estratégia política de destruir a língua dos povos que iam conquistando como melhor forma de definitivamente os subjugarem.
Compreende-se, por isso, o alcance da feliz síntese de Fernando Pessoa quando um dia escreveu: «a minha Pátria é a Língua Portuguesa». Como igualmente se compreende o papel fundamental que aos poetas e pensadores cabe na defesa e preservação dessa verdadeira essência nacional.

Por consequência, não podemos nem devemos ficar indiferentes perante a crise por que passa o nosso património linguístico, de que são evidentíssimos exemplos os repetidos erros de prosódia e de ortografia, o constante abuso de “bengalas”, de lugares-comuns e de obscenidades e uma notória perda do sentido da oralidade.

Por outro lado, parece ter-se esquecido que, embora reduzido à pequenez do seu território europeu, Portugal continua a ser ainda hoje a matriz de um vasto império linguístico que abarca quase duzentos milhões de falantes. E o não aproveitamento deste tão amplo espaço cultural comum para uma forte e estável afirmação do nosso país na Europa e no Mundo afigura-se-me como um autêntico crime de lesa-pátria! Basta atentar nos mais recentes esforços diplomáticos francófonos, anglófonos e castelhanos na disputa de influência linguística, política e económica junto dos países de língua oficial portuguesa para se perceber como, de um momento para outro, podemos perder, irreversivelmente, um património com mais de cinco séculos de existência.

Mas o falado esquecimento não se limita a estes Estados lusófonos: alastra-se, ainda, às comunidades nacionais espalhadas pelos quatro cantos do Mundo, especialmente às que duradouramente se fixaram no Brasil, França, Luxemburgo, Suíça, Alemanha, Estados Unidos e Canadá! E uma tal situação não pode permanecer por mais tempo, sob pena de se perder definitivamente uma parte essencial da Nação e um fortíssimo trunfo de Portugal no concerto internacional.

Urge, por isso, incentivar a lusofonia, promover e desenvolver a Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa e reforçar a ligação do nosso país à diáspora. E, para isso, é preciso apostar estrategicamente no ensino e expansão da língua pátria, designadamente através da criação, alargamento ou reforço de Centros Culturais dependentes do Instituto Camões, da abertura de escolas ou institutos de Português, da instituição de mais leitorados e cadeiras de língua e literatura lusas em universidades estrangeiras e de uma política mais consistente de instituição de bolsas de estudo para frequência de cursos superiores em faculdades e institutos politécnicos portugueses.

A par disso, importa, internamente, reformular a todos os níveis o ensino da língua pátria, que deverá ser orientado no sentido de uma maior exigência e rigor no seu uso correcto e na transmissão de ideias e conceitos precisos e de incutir o gosto pela leitura e pela cultura em todos os seus diversos géneros.

Quanto mais rapidamente formos capazes de concretizar estas e outras políticas, tanto maior será o nosso fervor patriótico. Como julgo ter demonstrado, a causa da independência nacional passa, também, decisivamente, pela defesa e promoção da língua portuguesa.




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