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Acolher a criança

Olhando para o que se passa na sociedade portuguesa, a mensagem do Papa para esta Quaresma é mais que oportuna. É um convite a que todos reflictamos sobre como são tratadas as crianças nas nossas famílias, na sociedade civil e na Igreja.

N/D
19 Fev 2004

Há, graças a Deus, muitas crianças que transpiram felicidade. Que são tratadas de harmonia com a sua dignidade. Que vivem num ambiente de respeito e de carinho. Que são devidamente acompanhadas no seu crescimento harmónico e integral.
Há, também, dois extremos que particularmente me despertam a atenção: o das crianças exageradamente mimadas e o das crianças instrumentalizadas ou abandonadas.

Há crianças exageradamente mimadas. Superprotegidas. Rodeadas de carinhos em excesso. A quem se não sabe dizer “não” mesmo quando, para bem das mesmas, era necessário que se dissesse. Que em nada são contrariadas. Que vêem satisfeitas todas as suas vontades e todos os seus caprichos.

Que sabem que tudo conseguem com maior ou menor birra, com mais ou menos teimosia. A quem os pais “educam” de tal forma que as não ajudam a fortalecer a vontade, que lhes evitam todas as canseiras e esforços, que lhes não acenam com o menor grau de exigência.

No lado oposto encontram-se crianças abandonadas, algumas logo após o nascimento. Crianças usadas na mendicidade. Crianças de quem sexualmente se abusa. Crianças vítimas de agressões verbais e físicas. Crianças de quem se exigem trabalhos que não estão de acordo com o seu desenvolvimento e as suas capacidades. Crianças que vivem num ambiente de gritos, de palavrões e de insultos. Crianças traumatizadas, porque testemunhas impotentes de cenas de violência doméstica. Crianças filhas de pais separados, que agora estão com o pai e logo com a mãe, e que, mais do que acarinhadas, são, muitas vezes, instrumentalizadas ou usadas.

É imperioso tomar cada vez mais consciência de que a criança é uma pessoa como qualquer outra e tem uma dignidade que em todas as circunstâncias deve ser respeitada. É imperioso tomar cada vez mais consciência de que a criança é um ser humano com o direito a ser feliz e a viver num clima de tranquilidade e de paz. É imperioso tomar cada vez mais consciência de que a criança tem o direito de crescer e de ser educada num ambiente de compreensão e de tolerância. E é imperioso ainda tomar cada vez mais consciência de que educar a criança é também despertar nela o sentido da responsabilidade e da solidariedade; a consciência de que tem deveres a cumprir, à frente dos quais está o de respeitar os outros e de fazer bem as tarefas que lhe cabem.

A criança deve ser educada no sentido de respeitar as legítimas diferenças que há entre si e os outros e de se habituar a resolver os conflitozinhos do dia-a-dia sem recorrer a qualquer tipo de violência.

Acolher em nome de Jesus uma criança é acolher o próprio Jesus, lembra o Papa na sua mensagem.

Diversos responsáveis têm alertado para o envelhecimento da população, devido à quebra drástica da natalidade. Há muitos casos em que se não vê Jesus na criança. Há muitos casos em que, em vez de ser acolhida, a criança é simplesmente aceite ou tolerada. Há muitos casos em que a criança é positivamente rejeitada.

O mundo melhor que é imperioso construir passa, em muitos casos, pela mudança de comportamento em relação à criança, que a sociedade egoísta e consumista passou a ver mais como estorvo do que como bênção de Deus.




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