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Fraquezas do quarto poder

Não é nova a designação do mundo da informação como o quarto poder. Efectivamente, os meios de comunicação social numa sociedade aberta, onde as restrições à liberdade de expressão não são organizadas pelo poder político, erigem-se em força que é preciso ter em conta, não só por aquele tipo de poder, como também pelos grupos de influência que ficam a perder se alguma mácula a seu respeito é desvelada pelos “media”. Por isso, não é raro que este instrumento tão forte de influência seja cobiçado pelos senhores do capital, que assim investem para criarem uma boa imagem e poderem, subrepticiamente, criar um ambiente propício ao sucesso dos seus investimentos e, em geral, à sua aceitação no meio em que se inserem.

N/D
17 Fev 2004

Um meio de comunicação social não vive do ar, como costuma dizer-se, e, exprimamo-nos em linguagem simples, não costuma ser fácil a sua gestão económica e financeira. Com frequência, é obrigado a alicerçar a sua existência de base com o apoio de um ou vários grupos económicos, que garantem a sua viabilidade.
Tudo isto cria problemas de isenção e de fiabilidade das suas informações. Ler nas entrelinhas, isto é, discernir entre o que se diz e o que se quis dizer, entre o que se publicou e o que não se publicou, entre a forma como se noticiou um facto e o facto em si, eis uma tarefa nada singela para quem busca no que lê, no que vê ou no que ouve, a reprodução, tanto quanto possível objectiva, da realidade.

A seriedade e a formação deontológica dum profissional dos “media” deve alertá-lo para a fácil tentação de abusar do poder real que possui. A liberdade de expressão requer honradez e sentido de responsabilidade. Não pode publicar o que se entende, sem uma prévia averiguação sobre a verdade e sem um genuíno e sério compromisso de não mentir, de não se afirmar o que se não sabe bem e, muito menos, de expender as suas opiniões sobre um tema com sectarismo ou com superficialidade.

Decerto que o aperto redactorial de sair a tempo e não com atraso pode ser um factor de pressão forte sobre o jornalista. Isto não o dispensa, porém, de ser sério e honesto. O brio profissional deve ter em conta que o que se publica atinge cidadãos, consciências e seres humanos com tanta dignidade como o próprio autor da notícia ou do comentário.

Quando olhamos para o panorama do mundo da informação, por vezes ficamos com a ideia de que não existem tais preocupações de seriedade e de responsabilidade. Não é raro vermos um jornalista habitar num mundo de denúncia profética e de crítica. No entanto, se tentamos aprofundar um pouco mais o que ele revela, verificamos que não passa duma mera conjectura, ao confrontarmos o que diz um título e o que se escreve no texto da notícia. Outras vezes, dir-se-ia que ele se situa numa nuvem de imunidade etérea, pairando acima do bem e do mal, e atirando, sem grande fundamento, montões de lama sobre um cidadão. Atitude estranha. Faz o papel de acusador, deixando o ónus da prova para quem visa com o que escreve ou com o que observa. Trata-se de um comportamento intolerável e revelador de falta de sentido humano e de respeito pelo cidadão. Se suspeito que alguém é um malandro, não devo dele afirmar que é tal, sem provar primeiro por a+b a verdade dessa suspeição. Não posso atirar para o ar com displicência: «Tenho a impressão de que o senhor é um malandro… Prove-me lá que não é…» É a mim que me compete prová-lo e não a quem acuso.

Também os nossos meios de comunicação social não primam muito pelo pluralismo, ao menos em certas temáticas. Por exemplo: ainda que pessoalmente não morra de amores pelo actual Presidente dos EUA, devo confessar que há uma espécie de coloração monótona dos “media” em relação a tal figura política. É tratado como uma espécie de incompetente ou de um incapaz que os democratas não terão dificuldades, como fizeram ao pai, de o retirar da Casa Branca. Isto, como pano de fundo.

Timidamente, contudo, aparece um pequeno resultado de sondagens que o dão como favorito. Em que ficamos? Outro assunto monocromático diz respeito à despenalização do aborto. Parece que em Portugal só há quem pense na sua despenalização e liberalização. Quem se lhe opõe, ou é mudo ou não lhe dão voz.

Por fim, a seriedade e a profundidade no modo de abordar certos temas. Há alguns que são um verdadeiro desastre. Um caso paradigmático: informação religiosa. Ainda há dias, na RTP, perante o meu espanto, fiquei a saber que os católicos – e eu sou sacerdote desta confissão religiosa – iam viver um Ano Santo. A minha surpresa esboroou-se, quando fiquei a saber que, afinal, o Ano Santo se relacionava com já não sei que comemoração, no Patriarcado de Lisboa, relativa a São Vicente…
Ou seja, é preciso melhorar muita coisa.




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