Fotografia:
Défice civilizacional

A aprendizagem da humanidade tem sido feita de estagnações e acelerações. Os séculos não têm sido iguais ao longo do desenvolvimento humano. Desde que o ser humano, ou algo que julgamos ser, como sendo a sua génese, apareceu sobre a terra, até aos dias de hoje – o do homem tecnológico -, cumpriram-se milhões de anos; alguns estão tão envoltos em nebulosidades de conhecimentos que apenas os podemos percepcionar em silhuetas. Mas o século do nosso tempo está aqui à mão, são do nosso pleno saber.

N/D
16 Fev 2004

Quando passamos por funcionários que varrem as ruas é porque alguém ainda deita para a via pública as embalagens das compras ou os papéis dos embrulhos; quando apanhamos com as chuvas dos escoamentos das águas caseiras pela vazamento directo para a rua é porque ainda estamos no tempo de “aí vai água”; quando se tem de descer do passeio para dar lugar aos automóveis estacionados é porque o tempo de hoje atropelou o tempo de dantes; quando se vai a uma repartição pública e se é olhado como utente, em vez de ser atendido como um cliente, é porque a função pública é do tempo dos faraós; quando as delicadezas para com as crianças e velhos são substituídas pelos encontrões, ou palavras de impaciência, é porque o século XXI é herdeiro e não pioneiro; quando as televisões falam da chegada da luz eléctrica a um povoado, ficamo-nos a pensar se realmente a humanidade andou ou se tudo está como no início.
Tudo é diferente hoje, ou o homem de hoje é igual, no miolo, ao de dantes? Será apenas diferente na côdea? Depois olhando para a guerra civil das estradas portuguesas, perguntamo-nos se esta gente está ou não no século XXI ou se vive mentalmente ainda no tempo da invenção da roda? Maldita invenção esta, a da roda, que pôs os portugueses a matar portugueses! Se eu fosse estrangeiro não vinha passar férias a Portugal; tinha medo de que o meu último destino fosse a berma da estrada como cemitério. O povo que precisa de leis altamente repressivas para cumprir com os seus deveres civilizacionais, é um povo ainda bronco! Bronco no sentido de primário em civilização. Buscando explicações, dizem os espertos, “estas atitudes desviantes são a expressão de frustrações mal curadas”. E acrescentam, “são tentativas de compensação”. Ao vermos os campos de futebol, e a agressividade que por lá vai, dentro e fora dos relvados, nos túneis e acessos, nas entrevistas de treinadores e dirigentes, olhamos com alguma saudade para os torneios medievais. Eram brutos, mas ao menos eram mais nobres e com outro sabor romântico. Os de hoje são apenas brutos. O défice civilizacional que temos é causa e consequência duma única matriz: a falta de respeito pelo outro.

O semelhante não precisa de ser meu amigo ou simples conhecido, para o tratar com deferência; basta ser um ente humano para lhe prodigalizar todo o meu respeito e consideração. Quer ele se cubra de vulgares atavios, quer se emboneque de roupa de marca, é ele em toda a soberania da sua excelência. Os comportamentos, na rua, na condução, nas repartições públicas, nos campos de futebol, nas palavras, em resumo, serão sempre a marca indelével duma civilização. O problema, diz-se por mentalizações através de seminários, campanhas ou conferências televisivas. Tudo tem sido experimentado até à repressão policial e/ /ou à feitura de leis cada vez mais duras. Nada se tem adiantado porque o mal está numa educação que não tem sabido formar o cidadão. Saber a saber estar também é muito preciso.




Notícias relacionadas


Scroll Up