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Contra novos Alquevas

1. Destruir ou não o rio Sabor – Foi há 4 anos. Após a mobilização e luta de boa parte da nossa intelectualidade menos desatenta ao tema da preservação do pouco que já resta da nossa Natureza, pareceu definitivamente arredada a construção de duas barragens no nosso interior – Norte: a do rio Coa, e a do rio Sabor.

N/D
14 Fev 2004

A barragem do Coa acabou por não ser construída, por causa da existência de um vasto e extenso complexo de desenhos pré-históricos, alguns deles com mais de 20 000 anos. A barragem do Sabor também não avançou (e bem) em homenagem à preservação de um rio de paisagens monumentais, que juntamente com os seus afluentes Angueira e Maçãs constitui seguramente nos seus quase 200 kms de extensão total “um dos últimos rios selvagens da Europa”.
As intenções predatórias do nosso poderoso “lobby do betão” desviaram-se então de surpresa para o Guadiana, onde construíram finalmente o sempre adiado “elefante branco” do Alqueva, destruindo assim um rio emblemático da nossa velha Ibéria, derrubando ou afogando centenas de milhares de sobreiros e azinheiras, expulsando para Espanha dezenas de espécies autóctones, sobretudo de aves.

2. O regresso dos vampiros – Pareceu nessa altura haver um acordo táctico com ecologistas e os outros defensores da Natureza. A ideia que passou foi a seguinte: “do mal, o menos; tem de se deixar destruir o mais monótono Guadiana, para que se salvem o pré-histórico Coa e o monumental e paisagístico Sabor”.

Contudo, de há semanas a esta parte vários periódicos voltam a agitar o espectro das mesmas barragens do Sabor e (agora) do alto Coa. Os abutres estão de regresso, os vampiros estão de volta.

3. Rios do nosso Nordeste selvagem – A América tem (e muito preza) o seu Oeste selvagem. O Brasil, o seu Pantanal e a sua Amazónia. O Perú e a Argentina, os seus Andes. O Quénia e a Tanzânia, os seus Masai-Mara e Amboseli. No pequeno Portugal, a região mais bela e menos tocada pelo “progresso” será a de Trás-os-Montes e Alto Douro, que tem a vantagem de ficar mesmo ao lado da sobrepovoada região de Entre Douro e Minho, à qual está agora ligada por magníficas vias. Não será precisa muita habilidade para fazer afluir do populoso litoral, tão próximo, rebanhos de adeptos do turismo ambiental. Aliás, este tipo de turismo já se faz hoje, à volta de um tema menor, o das “amendoeiras em flor”, árvore que qualquer um pode plantar no seu jardim…

Ora o que o Nordeste tem de monumental são as paisagens grandiosas, os seus espaços abertos e despovoados, o caos orográfico das suas montanhas, lombadas e planaltos, os cheiros fantásticos dos seus variados arbustos e flores, a ambiência duma Andaluzia, duma Grécia ou dum Sul de Itália numa latitude descabida, porque nortenha. E é terra de grandes calores no verão e de farta neve no inverno.

E depois há aqueles fantásticos arvoredos de sobreiros e carrascos que fazem no Nordeste português um Alentejo a norte, mais bonito ainda do que este, porque muito acidentado. E depois há também as extraordinaríssimas fragas e penedos, de xisto ou de granito, que começam agora a ser sistematicamente arrasadas para que os ignorantes endinheirados das cidades possam ter caras casas de pedra em vez de cimento e tijolo.

E o Nordeste tem também os seus grandes rios, ainda pouco tocados. Boa parte do Douro já foi contudo sacrificada às barragens, aos areeiros (responsáveis pela queda da ponte de Entre-os-Rios) e aos caprichos do transporte fluvial de turistas. O parque natural do Douro Internacional lá vai, a custo, aguentando. Mas há outros rios no Nordeste. São sobretudo o belo Tua, com as suas gargantas, os seus penhascos e as suas florestas de pinheiro bravo e sobreiro. E também ainda, o já mencionado Sabor.

4. O valor do rio Sabor – Este rio Sabor é praticamente desconhecido dos portugueses. É um desfiladeiro tortuoso contínuo, que vem desde a fronteira de Bragança até à sua foz, no Douro, perto de Moncorvo. Sempre com as margens a 300 ou 400 metros de altura, grande variedade de espectaculares formações rochosas, muitas delas rodeadas de arbustos ou de carrascos e sobreiros. É “habitat” de muitas águias, abutres, mochos, raposas, javalis, morcegos. Cá em baixo nas praias e nos meandros do rio, é fácil ver andorinhas ripícolas, rãs, lagartos e várias espécies de peixe. No baixo Sabor há concorridas praias fluviais e concursos de pesca. Daí que, uma barragem como a que tem sido pensada para a quinta das Laranjeiras, no Sabor, dava cabo de tudo isto, inclusive das praias naturais na zona da ponte de Remondes, na estrada Macedo-Mogadouro.

5. A ditadura de um homem ou a de vários “lobbies”? – Censura-se geralmente o anterior regime por ele consistir na ditadura autocrática de um homem, o dr. Salazar. E do mesmo modo se costuma louvar o presente regime, por nele (em teoria) vingar uma lógica de liberdade individual e de uma pretensa capacidade de o povo poder escolher uma dentre várias políticas antagónicas (o que na prática é contudo bastante difícil, dado o controle quase absoluto dos “media” por entidades cujo pensar pouco varia…).

Na prática, porém, o actual regime português (à semelhança do que acontece lá fora com os outros regimes democráticos) é muitíssimo condicionado e determinado pelos interesses de “grupos de pressão” (“lobbies”). Entre estes, os construtores civis serão os mais fortes (lembremos os gastos da Expo 98, do Porto 2001, dos estádios do Euro 2004, a impune ruína da ponte de Castelo de Paiva, a barragem do Alqueva, etc.).

Mas há também outras ditaduras “lobbistas” mais ou menos disfarçadas, cujos interesses continuam indiscutíveis “tabus”. Vejam-se os grupos de pressão da droga, do eucalipto e pasta de papel, da caça, da indústria de combate aos fogos, dos homossexuais, dos pedófilos, das minorias étnicas (principalmente meridionais ou levantinas), do grande capital internacional, dos dirigentes desportivos, dos criadores de moda, dos anti-fascistas, dos laicistas, dos “maçons”, do “fast food”, do cinema americano, dos anti-militares, dos anti-colonialistas, dos anti-nacionalistas, dos editores de música “rock”, dos fabricantes de computadores, dos produtores de energia eléctrica, dos curandeiros e astrólogos, das seitas religiosas, dos promotores do golfe e dos desportos náuticos, dos promotores de parques eólicos e de mini-hídricas, que sei eu?

Todos juntos, acabam por ser mais numerosos afinal, que o número de ditadores que aquela anedota saudosista achava necessário haver em Portugal e que era “um Salazar em cada esquina”…
Esperemos contudo que os “lobbies” e da energia eléctrica recuem. E que os rios Sabor, Tua, Coa e Águeda continuem pertencendo àquela minoria de rios sagrados e intocados. Para tal, basta que todos poupemos um pouco. Consumamos (apenas um pouco) menos de electricidade e salvemos o Sabor, o Coa, o Águeda e o Tua. “No poupar é que está o ganho”, diziam os nossos sábios avós…

Um dia nos chamarão “bárbaros” ou “selvagens”, se não tivermos em Portugal ao menos um ou dois rios verdadeiros, para mostrar aos nossos netos. Mesmo que todos os outros estejam represados e transformados em lagoas de águas paradas e poluídas…

Aperfeiçoemos as maneiras de captar energia das ondas do mar e da luz solar.




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