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Quo vadis, meu Portugal de marinheiros!

Tarde, muito tarde, entrámos para a família que reconheceu residir no povo a soberania. Para isso fizemos uma Revolução. Pouco faltou para cairmos nos exageros da Revolução Francesa de 1789 que criou a guilhotina para ceifar as vidas daqueles que consideravam contra revolucionários.

N/D
13 Fev 2004

E anarquia foi de tal ordem que, guilhotinado Luís XVI e Maria Antonieta, os que detinham o poder e mandavam matar os adversários, acabavam por vir a ser vítimas, também eles, tantas vezes, no dia seguinte.
Mas nós, mesmo assim, frustrada que foi a ameaça da matança da Páscoa, não fomos tão longe, mas cometemos erros que ainda hoje estamos a pagar. Enquanto o interesse geral não estiver acima do interesse partidário, Portugal não sairá da cepa torta. A Revolução que fizemos devia ser também de mentalidades. Mas não foi.

Não há democracia sem partidos. Mas continuamos a pensar que, para conquistar o poder, vale tudo. Os líderes põem acima do interesse nacional o interesse do partido. Daí que, quando na oposição, façam política do vota a baixo, mesmo que reconheçam que as medidas propostas pelo governo seriam por si subscritas se fossem eles o poder.

Entendem assim que apoiar medidas de interesse nacional é oferecer de bandeja credibilidade ao governo. E assim acabaria a regra da alternância tão cara à democracia, pensam eles. Com cabeças assim vazias não vamos a lado nenhum. A nossa vivência democrática parece ser para inglês ver.

Passados quase trinta anos pouco aprendemos. E são tantos os países que se libertaram da opressão e, apesar de arrancarem do ponto zero, conseguiram marcar pontos em educação cívica e prosperidade. E os maus exemplos vêm de cima. Mesmo por parte de quem atingiu o vértice da pirâmide do poder na área de cargos electivos.

O trabalho deve ser uma preocupação constante de quem governa. Mas lá fora, a flexibilidade é um dado adquirido. Aqui é considerada quase um crime. Enquanto os líderes sindicais forem simultaneamente militantes partidários os trabalhadores continuarão a ser marionetas nas mãos deles. Com tais leis laborais continuaremos a ser um país adiado, pouco competitivo.

Temos gestores, empresários e académicos competentes, mas os escolhos impostos pelo poder político impede-os de fazer mais pelo relançamento da economia. Para não perderem o poder, os políticos correm o risco de criar jobs for the boys à toa, substituindo tantas vezes, na administração pública, altos funcionários de um profissionalismo a toda a prova, só porque têm tendências partidárias adversas.

Sim à substituição quando a estratégia política de um governo esteja ameaçada. Mas quase sempre não é esse o caso. E quantas vezes neste país se pagam favores políticos com falsos empregos. E o resultado é ficarem os novos funcionários como as sardinhas na canastra, por falta de espaço, e sem sequer um papel para carimbar.

E a desfaçatez é tanta que ainda há dias um político, ex-ministro, dizia que, há menos de quatro anos, todas as famílias eram felizes porque tinham carro e casa própria! E agora não têm nada. É preciso ter lata.

A crise por que passámos, e ainda se arrasta, veio de fora, mas foi muito agravada pelas facilidades de crédito à habitação e outros enganosos benefícios. Na ânsia de conquistarem credibilidade, os políticos deram o que não tinham, enganando os cidadãos com o mundo cor-de-rosa que lhes prometiam. As famílias viviam acima dos seus rendimentos.

O País vivia à tripa forra, endividando-se continuadamente. E, salvo poucas excepções, que as houve, esta tendência vem já dos tempos do PREC. Neste país de tantas leis, que não se aplicam, vote-se no Parlamento uma lei revolucionária, mas agora para cumprir: uma lei que obrigue os políticos, candidatos a ministros e a deputados, a fazer um estágio lá fora num dos países europeus onde a democracia seja uma realidade, com resultados à vista e políticos de consciência cívica.

Fala-se muito de desemprego, mas infelizmente não falta quem se dê bem com os subsídios atribuídos a desempregados. Ainda há dias estavam a inscrever-se no desemprego meia dúzia de saudáveis trabalhadores. Apareceu um empresário que seleccionou um a quem ofereceu um posto de trabalho, bem remunerado.

A resposta foi pronta: «Estamos aqui tantos e você foi logo reparar em mim»! Esta a mentalidade de muitos dos que precisam de trabalhar. Porquê este procedimento? Por causa das leis laborais, lesivas de quem trabalha e entraves para o relançamento da economia.

Lá fora, os nossos trabalhadores, os nossos empresários, os nossos cientistas são do melhor. Porque têm leis que respeitam, sem abusos absentistas, mas que os compensam também. Entre nós, por falta de estímulo, os bons preferem ser maus.

Como sair desta encruzilhada? É possível, mas não fácil. Só quando os políticos, trabalhadores e empregadores meterem na cabeça que acima do interesse individual, ou de grupos, ou de partidos, está o interesse nacional. Neste país ninguém quer sacudir a crise, acreditando que depois da tempestade vem a bonança.

Habituámo-nos a comer as sementes. E depois? Depois não há são-miguel de colheitas. Este governo tem tido a confiança do Presidente da República – este o melhor que tivemos desde o primeiro que foi o pior. Já aqui o afirmei. Mas sabe certamente que a dureza e firmeza, com que tem governado, o vão penalizar, em próximas eleições.

Assim se passou com o governo do Bloco Central, com Mário Soares a primeiro-ministro e Mota Pinto a vice, sendo ministro de Finanças, Ernâni Lopes. O país estava em pantanas! Entendeu o ministro, e muito bem, não se coibir de propor a aplicação de impostos retroactivos a funcionários públicos, entre tantas outras medidas impopulares.

E o que se veio a passar? Nas eleições seguintes, o PS teve uma votação à volta dos 20 por cento. Coisa nunca vista, nem antes, nem depois.

É esta a nossa consciência cívica! Estamos na cauda da União Europeia. Numa sondagem recente entre vários países de pontos fortes e pontos fracos, estávamos em último, com zero pontos fortes e 13 (o número maior) em pontos fracos. Quem vota mão a isto?




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