Fotografia:
Crianças joguetes da crise dos pais…

Presenciei, há dias, um episódio paradigmático: um pai com os filhos pela mão descia a rua, ele com cerca de nove anos, ela com uns sete anos; às costas um pequeno saco de viagem; em breves segundos, no dobrar de outra rua, as crianças são entregues ao homem com quem a mãe vive actualmente; colocadas as parcas bagagens num carro, eis que os petizes descem a rua, donde se ausentaram por breves momentos, com o homem com quem vive a mãe, novamente levados pela mão, numa (aparente) atitude de aceitação em busca da mãe num lugar certamente combinado…

N/D
11 Fev 2004

Enquanto se vão dirimindo argumentos de abaixo-assinados pró ou contra o aborto, factos como este episódio flagrante da vida real interpelam-nos aferroadamente, quais espinhos nessa árdua tentativa de com-preender o que é hoje a família.
Com efeito, vemos com alguma apreensão – sem dramatismo, mas com alguma visão (cremos!) da realidade – diversas mutações nesta ‘célula’ fundamental e fundacional da sociedade, que é a família.

Tal como dizia João Paulo II aos auditores, oficiais e advogados do Tribunal da Rota Romana, o fracasso de um matrimónio não implica necessariamente a sua nulidade. De facto, nem sempre quem celebra o matrimónio reúne – espiritual, cristã e eclesialmente – condições mínimas e, por isso, a graça não actua (se bem que ela até supra as lacunas dos contractuentes) como devia, pois falta/falha a preparação da sua actualização activa. Quantas vezes o acto celebrante do matrimónio está eivado de preconceitos, superstições e ritos mágicos! Quantas vezes os celebrantes – isto é, os nubentes – primam pelo desconhecimento das exigências mínimas (mesmo que se faça alguma preparação) do que esse acto significa de compromisso de vida!

Posteriormente vemos que os conjugues (dizem que poderemos entender: ‘com o mesmo jugo’) com alguma facilidade trocam a presença mútua por companhias anteriores e onde perpassam, quantas vezes, situações de desencaixe ou até de quase ruptura!

Com alguma complacência se percebe que a vida – particularmente pelo nascimento de filhos – nem sempre faz parte dos projectos comuns. Assim vai crescendo o trauma do ‘filho único’, das dificuldades de emprego, da precisão/compra de (topo de gama) carro… por entre os condicionalismos da habitação pequena, da pressa em ter tudo do ‘bom e melhor’ e com isso ir-se perdendo a capacidade de construir em comum.

Temos, urgentemente, de reflectir sobre que família estamos a construir. Temos, com a maior brevidade possível, de interrogar-nos sobre que futuro queremos dar aos vindouros. Temos de saber escolher, com critérios cristãos, que sociedade pretendemos ajudar a fazer.




Notícias relacionadas


Scroll Up