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772. Senhora Ministra das Finanças:

1. Anos 60. Tribunal de Alguidares de Baixo. 9 horas da manhã. Jeremias entra na repartição, despe o casaco, calça os manguitos e senta-se à secretária. Dá volta aos papéis, selecciona alguns e arquiva-os nas respectivas pastas.

N/D
11 Fev 2004

Puxa de um cigarro, acende-o, cerimoniosamente, tira uma longa fumaça, expele meia dúzia de círculos de fumo e fica-se a olhá-los subindo no céu da sala. E matuta na vida. Na porca da vida!
Em casa, mulher e três filhos, um ordenado de miséria (um conto e duzentos mensais) que não chega para as necessidades, e perspectivas de promoção num vê-las! O chefe não o chupa, que ele não alinha no esquema lambe-botas.

Sempre sonhou o Jeremias, senhora Ministra, com uma casinha própria, um carrito e um futuro para os filhos melhor que o dele. Mas, Lisboa bate sempre na mesma tecla:

-Funcionário público ganha pouco? Também para o que trabalha…

-Funcionário público trabalha pouco? Também para o que ganha…

E, assim, Jeremias gemia, gemia!

2. Anos 80, senhora Ministra. O mesmo Tribunal e as mesmas horas da manhã. Jeremias estaciona o carro no reservado da entrada (a vida melhorou muito, 100 contos mensais de vencimento e casa própria), entra na repartição, cumprimenta, um a um, os subordinados e dirige-se ao seu gabinete.

Despe o sobretudo, senta-se à secretária, liga o computador, chama o contínuo para lhe trazer um cafézinho, passa os olhos pelos jornais da manhã. Às dez, tem uma reunião de dirigentes sindicais e, à tarde, participa numa manifestação contra a proposta salarial do governo (que não vai além dos 10%) e a progressão na carreira em negociação.

A febre de Abril e a demagogia política estão em alta! E com elas uma função pública revalorizada e no coração dos políticos.

E Lisboa bate na mesma tecla:

-Funcionário público precisa de ganhar muito, mesmo trabalhando pouco!

E, assim, Jeremias não gemia, não gemia.

3. Ano 2004. A Função Pública, senhora Ministra, em crise. À beira do colapso! Contra a corrente anterior de emprego do Estado – emprego para sempre, ser funcio-nário público é, hoje, profissão de alto risco. A Reforma da Administração Pública, que se avizinha, prevê contratos individuais de trabalho, avaliação do desempenho, despedimentos colectivos, nulidade de contratos de trabalho por motivos não imputáveis ao trabalhador, a somar ao segundo ano consecutivo de congelamento de salários.

Após o 25 de Abril, fosse para remediar o estigma do desemprego, fosse para recolha de dividendos políticos, o Estado, a par das Autarquias, tornou-se no maior empregador nacional. E com efeitos perversos bem conhecidos: aumento exponencial do número de funcionários, política dos jobs for the boys, reformas douradas dos políticos, descalabro das finanças públicas! E é, assim, que a Administração Pública bate no fundo e tem um futuro negro à sua espera.

Agora, o primado do económico sobre o social aí está com todo o cortejo de incongruências e brutalidades! E a Função Pública transformada num ringue de boxe, onde o desprotegido funcionário apanha pela medida grande!

E é, deste jeito, senhora Ministra que, por pecados velhos e culpas alheias, vai ficar na história como carrasco-mor dos funcionários públicos e na lista negra como primeira autora do congelamento dos seus salários!

E se alguma razão, economicista ou política, tem naquilo que faz, seguramente, que só o futuro, e muito longínquo, lha poderá dar!

Com os melhores cumprimentos e até de hoje a oito.




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