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O que se diz e o que se faz

Como sempre, surgem promessas que incutem no cidadão alguma esperança; mas à medida que os meses correm, vai-se esmorecendo.

N/D
9 Fev 2004

Os argumentos utilizados para justificar o que não se faz têm poucas variantes, focando quase sempre a situação interna-cional, o lento processo da retoma económica. Nova promessa, esta condicionada no tempo, refere que as melhorias começam a sentir-se, mas só no fim do ano ou anos imediatos é que se sentirão no bolso dos portugueses…
Talvez promessas de mais trabalho, melhor saúde, mais educação e melhores pensões sociais já não façam muito sentido, considerando que são promessas de quase sempre, nos últimos anos.

Entre o que se diz e o que se faz, fica a realidade de um país em crise profunda, que se agrava com o aumento de desempregados, famílias endividadas, doentes sem consulta, tratamento ou apoio social, salários em atraso, empresas em falência, enorme fuga ao fisco e tentativas de modernização com recurso a despedimentos, substituição de operários por novas tecnologias.

Este cenário parece-me realista. Também acredito que o calendário tem doze meses e penso e quero acreditar que existe igualdade na contagem de tempo de serviço para acesso à reforma, independentemente de se tratar de operário, deputado ou ministro. Um ano deve ser sempre e apenas um ano. Também a segurança so-cial, o emprego e outros sectores fundamentais surgem com programas e planos de reestruturação, obviamente com alguma morosidade. Apetece perguntar se as famílias, os jovens desempregados, os desempregados de cinquenta e mais anos não vão merecer do governo uma solução que lhes atribua alguns direitos, em vez de penalizações, nos casos em que o sistema político e a crise, motivada por elementos estranhos à vontade do trabalhador, os “despejou” para tal situação.

Não serão estes problemas mais importantes que a revisão de salários elevados de alguns quadros de topo, no curto prazo? Relançar o país e a economia, investindo hoje para obter frutos num amanhã mais próspero e desejável, vai certamente levar algum tempo. O Euro será breve, o prometido e já anunciado TGV não é solução de momento, os problemas esses não são de futuro, mas uma constante que não se compadece com anúncios de futuros e hipotéticos postos de trabalho.

Custa ouvir falar em solidariedade perante tanto adiar de soluções. O stress, as doenças nervosas e o desânimo já começaram a fazer parte da vida de milhares de portugueses. Que a solidariedade e humanismo surjam também através de legislação e postos de trabalho; que as situações de desemprego tenham resolução, pondo fim a meses ou anos de incerteza; que os homens que deram ao país uma vida de trabalho encontrem agora, na segurança social, a garantia para uma vida digna, nos últimos anos de vida.

Talvez assim seja possível entender as promessas, compreender as campanhas eleitorais, participar na vida política, entender que férias até se gozam em casa, quando os recursos não permitem outras paragens. O que o povo não entende, certamente, são gastos em belos estádios, já comparados aos melhores do mundo, um TGV para nos ligar a toda Europa, aumentos de ordenados ou regalias quando o cenário de crise existe…

Sendo a reforma social uma necessidade, existirá um período de transição, onde se encontram neste momento milhares de portugueses. Para esses, a justiça possível será não os prejudicar, estabelecendo pensões justas e conformes com os anos de serviço e descontos, independentemente da idade ou se pertencem à administração pública ou sector privado. Critérios justos: um ano é um ano para todos; para calendário igual, tempo igual.

Entre o que se diz e o que se faz, surge a realidade e aí o homem vai gerando vontades e interesses, nem sempre preocupado com o todo, de quem um dia espera o voto. Ninguém deseja ser pessimista; mas, entre dizer e fazer, fica a realidade, e essa não entenderá nunca as promessas se não forem cumpridas. Os jovens e os menos jovens merecem prioridade, mesmo que o Euro 2004 e o TGV, aliados a outros possíveis eventos ou companhas eleitorais, tenham temporariamente alguma ou muita relevância. O país quer acreditar e ter esperança nos seus dirigentes.




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