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A repressão não é o caminho

Tínhamos dito há tempos, precisamente neste espaço, que as gentes do futebol deveriam ser educadas no sentido de ser preferível perder no campo da bola do que perder nas bancadas. Aqui está, isso sim, envolvido o bom nome de Portugal, aqui se joga o prestígio duma nação como país civilizado. Mas a voz do pensamento é apenas a aragem que enruga levemente as águas e não passa de viração.

N/D
9 Fev 2004

Os tristes acontecimentos de Guimarães, no jogo contra o Boavista, demonstraram-nos como eram, infelizmente, fundadas as nossas preocupações. O que vimos na televisão mais se parecia a uma arena romana: lá em baixo os gladiadores numa disputa de socos e pontapés e nas bancadas os assistentes deste circo numa histeria inqualificável.
De quem é a culpa destas batalhas de circo romano? Certamente das paixões quando levadas ao ponto de incontrolável, mas principalmente dos que tendo a obrigação de os educar para o espectáculo, os catequizam para a luta física em que o futebol se tornou. Falar em fair play é uma mistificação, ou, se quisermos, um chavão que está esvaziado de sentido e conteúdo. As multidões ululam, matam e esfolam se por trás dele existirem os agitadores e os pregadores inflamados. É o que acontece no futebol. Há terras onde este desporto não assume assim tanta importância, mas o mesmo não se dá nas terras pequenas que actuam com um sentimento de bairro, donde deriva a palavra bairrismo. Para estes o futebol substitui e preenche todos os seus sonhos; a glorificação do seu clube é a sua própria glorificação; as derrotas são sentidas como coisa própria e individualizada, às vezes, até ao paroxismo da dor. É a assunção das frustrações últimas. Guimarães, sabemo-lo, é uma das localidades onde o futebol é a paixão que preenche a vida de muitos dos seus cidadãos.

Nem queremos especular se é bom ou se é mau, se é um sinal maior ou menor de cidadania; é assim e assim tem de ser encarada. O Vitória de Guimarães tinha necessidade urgente de ganhar o desafio para fugir aos últimos lugares e então era certo e sabido que as sensibilidades gerais, potenciadas até à personificação, tornariam tudo mais efervescente que nunca. Ao barril de pólvora faltava apenas a faísca. E esta veio pelo empate que nada resolveu, antes tudo adiou. Na generalidade dos casos, também são rastilho a atitude dos dirigentes. É preciso moderação nos gestos teatrais dos dirigentes; alguns fazem dali o palco das suas encenações; é preciso ter contenção verbal antes e depois dos desafios; é preciso não levantar suspeições infundadas sobre as arbitragens. A maneira de ser dos adeptos é, quase sempre, o reflexo do comportamento dos dirigentes; é, pois, necessário criar outra pedagogia de ser dirigente.

Por outro lado, é necessário dizer aos adeptos que a grandeza duma localidade, ou a sua individualidade, não se esgotam, nem sequer se encerram, nos resultados dos jogos do fim de semana. Há outra purgação das paixões para as frustrações colectivas e individuais. É uma questão de procurar. Criaram uma doença de nervos à volta disto e agora não sabem encontrar-lhe a terapia.

Mas não é pela proibição de acesso aos estádios dos mais nervosos que vamos no caminho certo. Porque os não souberam educar, eles são, talvez, os últimos culpados. Também o governo alinha na solução mais fácil que é retê-los. Como? Vamos ver. A repressão educa para o exagero de quem a aplica e dá sinais de ódios em quem é aplicada. Dizem as estatísticas da reintegração social de delinquentes que 50 por cento volta ao crime. A repressão não é caminho plano, muito menos caminho seguro.




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