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Está a pensar publicar um livro?

Rodrigo Santiago foi notícia na semana que finda por ter deixado de ser o advogado do embaixador Jorge Ritto, arguido no processo da Casa Pia. Santiago concedeu várias entrevistas em que deu conta do seu aborrecimento pelo facto de Ritto ter arranjado um outro advogado sem aviso prévio. Ritto queria outro advogado apenas para ajudar Santiago, mas Santiago não aceitou a oferta. É que «quem escolhe os lugares-tenentes são os generais», terá dito Santiago.

N/D
8 Fev 2004

Um dos múltiplos entrevistadores de Rodrigo Santiago, depois de mais de uma dezena de questões sobre o embaixador e o processo em que ele é arguido, resolveu fazer uma pergunta diferente, uma dessas perguntas que faz história. «Está a pensar publicar um livro?», quis saber o jornalista. O advogado disse que não e o assunto ficou encerrado. Mas ficou mal encerrado porque os leitores do Correio da Manhã da passada quinta-feira ficaram sem compreender por que razão haveria o advogado de querer publicar um livro.
Seria para coligir os treze ou catorze recursos que interpôs? Para expor as suas teorias sobre a ingratidão humana em particular ou a prisão preventiva em geral? Rodrigo Santiago devia escrever um romance baseado na experiência que acabava de terminar abruptamente? Que tipo de livro queria o jornalista que o seu interlocutor escrevesse? Talvez felizmente, não haverá obra. Mas a mesmíssima pergunta continuará a ser feita a outras pessoas.

A nova moda tem vindo a afirmar-se gradualmente. Durante um programa televisivo recente, a questão foi colocada à jornalista da SIC, Maria João Ruela, que, como se sabe, apanhou um pequeno susto no Iraque. Também ela foi interrogada sobre se estava a pensar publicar um livro. Talvez sim, respondeu a estimável jovem.

Bem espremido, o episódio que Maria João Ruela viveu dará provavelmente duas ou três páginas interessantes. Como não serão suficientes para fazer um livro, ter-se-ão de arranjar mais uns quantos grandes nacos de frases para encher as restantes cento e tal páginas e a obrazinha, com o auxílio de uma dezena de entrevistas nos programas do costume, vender-se-á. Até a José Castelo-Branco, um cromo do jet-set, perguntaram se ele, por ter passado uma noite numa prisão, ia escrever um livro.

Em Portugal, editam-se dez livros por dia. Os números não especificam quantos são da autoria de portugueses. Contudo, ao ritmo a que chegam as respostas afirmativas ao «Está a pensar publicar um livro?», pode-se presumir que, em breve, haverá mais autores nacionais do que portugueses que saibam escrever. O que, evidentemente, não quer dizer que às livrarias não tenham chegado já doses significativas de obras de criaturas que julgam que a Gramática é uma actriz de telenovelas brasileiras ou uma empregada de um bar de alterne.

Os portugueses que gostam de dar palpites sobre tudo e sobre nada não estão apenas nos écrans televisivos. Agora também se encontram nas livrarias. Qualquer grunho participante em qualquer programa televisivo manhoso convive agora nas montras, nos expositores e nas estantes com astrólogos, jogadores de futebol, manequins, novos poetas, tarólogas, videntes e recém-doutorados. Qualquer um desses palermas a quem a televisão concedeu três minutos de glória considera-se apto a oferecer à humanidade, sob a forma de livro, o testemunho das suas irrelevantes experiências. E, quando a televisão já chutou essas criaturas para o eterno esquecimento, as suas almas ainda continuarão a penar nos invendáveis saldos das feiras do livro.

«Há nove meses atrás, dei comigo a passar para o papel aquilo que me ia na alma. Em pequenino, sempre tive a mania de que um dia iria ser escritor, mas daí até o ser, a distância era muita. Pensei: ou agora ou nunca. Se não me ponho fino, ainda passo ao lado da realização de um sonho de qualquer homem». A prosa é de Tino de Rans e, evidentemente, não é pior do que a de outros seus colegas do planeta político. O combate político, aliás, tem ocupado o palco editorial. Para exibir ao mundo a sua literacia e, sobretudo, a sua putativa consistência política, Pedro Santana Lopes, por exemplo, não encontrou nada melhor do que fazer um livro.

Poder-se-ia ter chamado De Palanque em Palanque, mas Tino de Rans já tinha colocado o título numa obra sua. Tal como Tino, Pedro Santana Lopes – que tem ou parece que tem outro pedigree – é um homem «de palanque em palanque». Os dois homens de acção e de verbo fácil foram buscar ao exterior da política os avalistas dos seus livros. Agustina Bessa-Luís caucionou Santana e o Bispo resignatário de Setúbal caucionou Tino. A caução é evidentemente um elemento da maior relevância no mundo da edição. É o nome do avalista que, pelo menos no momento de lançamento de um autor, certifica a qualidade de uma obra.

Neste momento, em que pouco se lê e muito se escreve, começa a impor-se a pergunta: «Está a pensar publicar um livro?» Quando se tentar apurar como correu a mais recente operação ao Mantorras, alguém perguntará: «Está a pensar publicar um livro?» A questão será também colocada à ministra das Finanças quando ela, numa conferência de imprensa, estiver a falar sobre os novos cortes nas comparticipações da ADSE. E, no preciso instante em que um árbitro apanhar com uma cadeira na cabeça, haverá alguém que, imediatamente, cuidará de atirar: «Está a pensar publicar um livro?»




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