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Cartas anónimas

Não costumo comentar as coisas, em cima dos acontecimentos. Gosto de esperar pela subida à tona da água de todas as circunstâncias do evento, de aguardar o apaziguamento de possíveis ânimos exaltados, de ouvir tanto as opiniões do pró como as do contra, para depois fazer a minha análise pessoal.

N/D
8 Fev 2004

Aqui há tempos, uma carta anónima que jazia acobertada pelo famoso segredo da justiça, através dum buraco de toupeira, chegou à redacção de um órgão de comunicação social. Depois a notícia espalhou-se por todos os espaços da comunicação.
O caso não seria de espantar, nem mereceria o realce dado, se não envolvesse altos cargos da governação pública, na já enfadonha e nojenta telenovela da pedofilia casapiana.

Seria mais uma carta anónima, a tresandar nojo e covardia, cujo destino óbvio seria o nosso bem conhecido «cesto dos papéis».

Mas, em lugar de toda a população verberar e exigir o apuramento de responsabilidades, a verdade, porém, é que se olvidou a gravidade da situação e a discussão do assunto se voltou para avaliar se a referida carta devia ou não ser inserida no processo.

É o velho costume português de nos agarrarmos ao acessório, menosprezando o essencial.

É conhecido de toda a gente o aforismo popular, transformado pelo tempo em expressivo provérbio, que o destino de toda e qualquer carta anónima é o inevitável cesto dos papéis.

Mas… talvez as coisas não se passem bem assim.

Para mim, este aforismo só costuma ser válido, quando se sabe a origem da missiva; quando se ignora a fonte, somos invadidos pela curiosidade e a carta é guardada e estudada em todos os pormenores, na expectativa de encontrar o mais leve indício que nos leve no enlaço do covarde autor.

Foi, segundo me apercebo, o que agora sucedeu.

A carta foi arquivada, porque pode conter sinais que identifiquem os negregados autores, que tiveram a coragem e o arrojo de, gratuitamente, enlamearem o Presidente da República.

A Polícia Judiciária não pode esquecer o assunto e já deve estar em campo.

Se o caso da pedofilia é grave, este, pelo que representa de atrevimento e de falta de respeito, não só às pessoas indicadas mas, sobretudo, às instituições que representam, não pode passar sem a necessária punição.

Está em jogo, para além do valor da personalidade humana, o prestígio da nação e o respeito por valores e altos ideais.

Há coisas, onde se não pode prescindir, doa a quem doer e custe a quem custar.

Por isso e só por isso, acho pertinente a inserção da carta naquele ou em processo próprio, para trabalho de investigação criminal e, se for o caso, consequente punição.

Fora disso, entendo que o destino de toda e qualquer carta anónima só pode ser o cesto dos papéis ou, então, a cremação solene na labareda de uma fogueira.




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