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«Uma moeda para os leprosos»…

Estava eu à espera dos trocos do pagamento do aparcamento do carro por baixo da Avenida Central, em Braga, aparece um rapazito (12 anos?) a estender a mão e a dizer: «uma moeda para os leprosos». Olhei para ele, fitei-o de alto a baixo, fixei-o nos olhos e respondi: «aqui não há moedas para leprosos; não andes a enganar as pessoas!» Julgo que já nem sequer ouviu as minhas últimas palavras… ainda observei se estaria nalgum canto das escadas que sobem, mas não o topei. Entrei no carro, subi dois andares e ao passar pela outra caixa de pagamento lá estava o rapazola, a estender a mão a outro cidadão. Julgo que também com este, ele não teria tido sorte, pois vi-o logo a desandar. Esta pequena peripécia no final duma tarde, e após ter andado de um lado para o outro em serviço, faz-me recordar muitas outras que todos os dias nos aparecem.

N/D
6 Fev 2004

Neste mesmo dia, um pedinte já batido naqueles espaços centrais da cidade, não me largou durante todo o tempo do percurso da Avenida, pedindo dinheiro para comer. «É para comer, para beber ou para droga?», retorqui eu. «Ah! Agora já não bebo nem tomo droga, é só para comer!», respondeu.
Ele estava mirrado e seco, e com o braço com gesso!

Perto do Paço Arquiepiscopal, quase todos os dias é um idoso, de sobretudo comprido e mal amanhado que todos os dias ali se encontra e pede a quantia habitual. E quando se não dá fica a resmungar e a dizer mal dos padres e, se calhar, também dos bispos, que trabalham ali ao lado.
De regresso, é a habitual velhinha, de bengala na mão, que percorre os cafés do princípio da Avenida e pede a esmola para comer. Já nem falamos daquele homem corcovado que se apresenta quase todos os dias na rua do Souto ou do invisual que costuma estar na rua ao lado da igreja dos Terceiros, lembrando Santa Luzia, protectora da vista.

Para compor o “rosário” aparecem ainda mais dois ou três rapazitos romenos (?), ou senhores, com os papelinhos, não se sabe bem se em português, em espanhol ou italiano, a pedir a esmola.

Normalmente têm de dar contas ao responsável que, de longe, vigia o andamento dos pedintes.

Mas a lista ainda não termina aqui. Também no semáforo vermelho ao lado das Oficinas de São José, sempre por ali está alguém: ora é uma moça aparentando saúde e vigor, ora é um jovem com cara de quem se droga, ora é um velhinho, mirrado e ressequido que, já vendo mal, se vai acotovelando com os carros que se põem em marcha.

Inúmeras vezes é à porta das nossas igrejas que, durante as celebrações, mulheres e crianças andam dum lado para o outro, esperando que os orantes saiam, para lhes caçarem alguma moedita que sobrou do ofertório da missa.

O panorama não é, de modo algum, consolador.

Ao olhar para estes pedintes, verdadeiros escorraçados da normalidade da vida, verdadeiras mãos estendidas a pedirem justiça e solidariedade, também me lembro dos milhões que, como estes, não têm pão para a boca, não têm uma casa minimamente confortável, nem vestuário condigno, nem, talvez, uma migalha de amor.

Não são só eles os culpados, ou melhor, nem sempre são eles os verdadeiros culpados da sua actual situação. Há muitos que esbanjam para estes não terem de comer; há muitos que acumulam para estes minguarem; há leis que favorecem, cada vez mais, um fosso maior entre os que nada têm e os que tudo precisavam de ter. É o mundo das disparidades, das desigualdades.




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