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Uma homenagem à altura do homenageado

Desde a década de cinquenta que ando, e com muito gosto, nestas andanças de jantares de homenagem a magistrados judiciais. Os tempos eram bem diferentes dos tempos de hoje.

N/D
6 Fev 2004

Advogados badalados, pouco mais de meia dúzia, nesta comarca: Sá Tinoco, Carlos Magalhães, Eduardo Mouro, Oliveira Braga, Catalão, Mário Valença, Assis Teixeira, Guilherme Branco e mais um ou outro cujo nome, de momento, não me ocorre. Todos já da terceira idade. Também é de notar que, bem ao contrário do que se passa hoje, os juízes chegavam a Braga com os cabelos brancos e derreados pelo peso dos anos de idade. Sem televisão, pouco rádio, tinham tempo para curtir o gosto pela cultura, o que não acontece nos dias de hoje em que as solicitações são muitas.
E, nesta área, seria uma injustiça grande se não recordasse, aqui e agora, Almeida Braga que se estreou nas lides políticas ao dirigir o semanário monárquico de Coimbra, “Pátria Nova”. A expressão “Integralismo Lusitano” foi usada pela primeira vez por Luís de Almeida Braga na revista Alma Portuguesa (Gand, 1913) designando um projecto de regeneração de Portugal. Almeida Braga, interpretando o recém-implantado regime republicano como uma nova etapa no processo de decadência, advogava que a regeneração só seria possível através de um retorno à integralidade do espírito católico que fizera Portugal. Tal o fervor pela monarquia e a hostilidade à República, que interrompeu os estudos de Direito em Coimbra, para participar, na Galiza, ao lado de Francisco Rolão Preto, nas incursões monárquicas de 1911, sob o comando de Paiva Couceiro. Conheci-o, e não poucas vezes o atendi, sendo eu um modesto funcionário judicial. Ainda hoje sinto a cada passo ressoar os fascinantes rasgos de oratória sem paralelo, dentro do foro daquele tempo! As audiências eram um mar de gente que transbordava para os corredores. Cativava a atenção dos presentes que se acotovelavam para o ver e ouvir num silêncio sepulcral! Claro que só intervinha em processos crimes de querela a que correspondia pena maior. Contudo, no cível não chega a dar nas vistas, a sua paixão era mesmo a política e a cultura. Estou a vê-lo, de porte fidalgo, não fosse ele monárquico, e sei lá se descendente da privilegiada classe aristocrática. Sempre bem penteado e, no Outono e Inverno, de capa cinzenta pelos ombros. Nas incursões sobre Iberismo e República, e também na literatura, poucas vezes o fazemos sem tropeçar no seu nome, ao lado de outros pares de grande protagonismo. Uma palavra de louvor a José Rodrigues Lima que, com “engenho e arte”, registou, recentemente, no Diário do Minho, no Suplemento Histórias de Vida, de que é autor, a vida e obra desse príncipe de oratória e personalidade marcante nas lutas à volta da Monarquia e República, no agitado período de transição.

Hoje convém não esquecer que o gosto pela oratória vem desaparecendo entre os profissionais do foro! E também já vão longe as grandes sessões do Parlamento do Constitucionalismo e da Primeira República, de finos recortes de retórica. Estou a lembrar-me de José Estêvão, entre tantos outros. E se quiséssemos ir mais longe, invocaríamos as Catilinárias de Cícero, esse clássico tribuno. Já depois de meados da década de cinquenta, começa a chegar a juventude, distinguindo-se, pela dedicação à cultura, José Ferreira Salgado, que tantas vezes me confessou uma certa desilusão por não ter seguido Humanidades. Contudo, como advogado, afirmou-se como mestre dos colegas mais a si chegados. Já vai longe o desvio que não pude evitar, visualizando flashes de recordações e vivências minhas desses recuados tempos, de sonhos altos, um tanto atrevidos mas que, com trabalho afinco, depressa foram concretizados.

Eis-me de volta ao tema central da homenagem e confraternização dos profissionais do foro, e não só. Não me lembro de uma homenagem igual, já pela espontaneidade, já pela qualidade dos participantes, já ainda pelo mérito do homenageado. Muitos oradores enalteceram as suas qualidades. Mas alguma coisa ficou por dizer sobre esse jovem magistrado que acaba de ascender ao Supremo Tribunal de Justiça. Salreta Pereira descende de uma família da alta classe média, oriundo de Cabeceiras de Basto, neto de um acreditado jornalista contemporâneo do Padre Domingos, revolucionário monárquico.

Mas o que realmente ficou por dizer é que o homenageado é uma figura de semblante iluminado por um simpático sorriso que fascinava tantos quantos com ele contactaram ao longo destes últimos anos. Sem complexos, tratava todos os advogados sem excepção e com o mesmo à-vontade com que lidava com os outros magistrados, seus colegas. Daí, e do seu afável trato, granjear, à sua volta, a amizade de funcionários, magistrados, advogados, e mais ainda de muitos amigos e conhecidos fora do foro. Para dar ainda mais colorido à festa não faltaram os fados de Coimbra – a “Grande Tuna FP”, bem afinada, onde sobressaíam magistrados e advogados, antigos estudantes dessa Coimbra tão linda. Surpresa, surpresa, a intervenção, largamente aplaudida, de Gomes Alves. Com essa tua rica voz de garganta de prata, e comigo a empresário, fazíamos, meu caro Fernando, uma carreira de sucesso. Só faltaria o Chico Mota Vieira para relações públicas. Por mim avançamos já. Aos brindes foi dada a palavra a toda a gente. Falou Óscar Gomes, Cunha Coelho, e os também Juízes Conselheiros João Magalhães e David Borges de Pinho, entre tantos outros convivas. Um deles, entusiasmado, gritou bem alto: «Mulheres, mulheres, onde estão as mulheres?» E logo todos, os casados, um a um, lá foram dizendo: «para a próxima vou trazer a minha».

Parabéns Dr. Saltreta. Agora só nos resta esperar vê-lo, um dia, sentado na cadeira da Presidência do Supremo Tribunal de Justiça. Qualidades não lhe faltam. E nós, espero bem, cá estaremos para a festa.




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