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Uma causa a defender

Em surdina ou de viva voz, a sério ou não, privada ou publicamente, alguns dos nossos mais pessimistas compatriotas, cada vez mais descrentes da nossa capacidade de afirmação colectiva como povo e nação independente, afirmam hesitar sobre se valerá a pena o país continuar a existir ou se, porventura, não seria mais avisado e útil integrarmo-nos rapidamente na Espanha, beneficiando, assim, do grau de desenvolvimento, do nível de vida e da boa governação dos nossos vizinhos.

N/D
5 Fev 2004

E também não falta gente, como o empresário José Manuel de Melo – um dos impulsionadores do Manifesto dos 40 que defendia a necessidade de manter os centros de decisão económica em território nacional e que, curiosamente, durante mais de 40 anos, beneficiou da protecção do regime salazarista – a advogar, presumo que ironicamente, a criação com os espanhóis de um novo país, a Ibéria, dividindo Portugal em duas ou três regiões, além do Algarve.
Embora compreenda que a perda do império colonial, a ruptura económica e financeira subsequentes ao 25 de Abril e a integração europeia, associadas à pequenez, pobreza e perificidade do território possam suscitar uma atitude pessimista de descrença nacional, não consigo aceitar a bondade da ideia de que a perda da independência e da soberania nacionais possa dissipar aquelas dúvidas existenciais, confortar o desânimo colectivo e resolver os nossos problemas económicos, sociais e políticos.

Bem pelo contrário. Acredito, sinceramente, que a perda da independência de Portugal e a sua diluição num pretenso Estado ibérico acarretarão, necessariamente, a perda de um dos mais sagrados direitos de qualquer Nação e de qualquer povo: o direito à liberdade, nas suas vertentes de auto-governo e de autodeterminação. Estou absolutamente convencido que, sem independência nacional, nos tornaremos um país cada vez mais exíguo e mais periférico a quem os grandes Estados europeus deixarão ficar as migalhas caídas da mesa do orçamento comunitário!…

E mais: entendo que a nossa capitulação nacional significaria, antes de tudo, uma traição à nossa história multissecular e um acto de suprema indignidade e falta de respeito perante os nossos egrégios avós. É que estes, apesar de mortos, também mandam, pelos exemplos que nos legaram, pelos actos de heroísmo que praticaram e pela tenacidade e valentia com que talharam e restauraram Portugal. Será, por isso, crime de lesapátria esquecê-los e abdicar da liberdade e da independência da Nação que eles tão orgulhosamente nos deixaram.

De resto, basta olhar para a Espanha e para a pulsão independentista da Catalunha e do País Basco, que as recentes eleições autonómicas regionais reforçaram, e atentar no surto nacionalista que há mais de uma dúzia de anos irrompeu na península balcânica e nos territórios da ex-URSS para perceber que a crise de soberania que atravessa horizontalmente a maior parte dos Estados, principalmente os europeus, deixou incólume ou até reforçou o sentimento nacionalista dos povos.

Sendo por isso a independência uma questão de honra e de liberdade, que tenho como indiscutível e inegociável, e uma causa estratégica nacional inadiável e imperiosa, importa não descurar a sua defesa que, em minha opinião, passa por quatro vectores fundamentais: restauração da monarquia, protecção e divulgação da língua e cultura pátrias, reforço da ligação aos países de língua oficial portuguesa e fomento da participação cívica e política dos cidadãos. Em próximas crónicas, procurarei abordar cada um destes temas.




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