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A partida de Fehér

Há dezassete anos que não entro num estádio para ver um jogo de futebol. Poucas vezes acompanho, pela televisão, a transmissão de um jogo de futebol do princípio ao fim. Gosto de ouvir relatos através da rádio, mas ao mesmo tempo que vou fazendo trabalhos que não exigem grande concentração.

N/D
5 Fev 2004

Isto significa que o futebol não é a primeira das minhas preocupações. E se é verdade que gostava que o Vitória de Guimarães ocupasse uma outra posição na tabela classificativa, também é verdade não ser isso que me faz perder o sono.
Tive conhecimento do sucedido a Miklos Fehér quando ouvia a Rádio Renascença. Fiquei perplexo e senti a sua partida. A partida de um jovem, cheio de naturais sonhos e ambições, que caiu no seu posto de trabalho.

Senti a sua morte como sinto a de qualquer outro ser humano. Por ele rezei, desejando-lhe a felicidade com Deus e implorando a misericórdia do mesmo Deus para com as suas possíveis fragilidades.

A morte de Miklos Fehér foi, para mim, a partida de mais uma pessoa para o outro lado que a vida tem. Acredito que continua a viver de uma outra maneira. Acredito que continua unido a nós. Acredito que nos pode ajudar, se estiver na felicidade com Deus, e que por nós pode ser ajudado, se se encontrar em estado de purificação.

Sem pretender magoar ninguém e sem que isso possa significar menos respeito para com aquele jovem futebolista, penso que se exagerou nas circunstâncias que rodearam o seu funeral.

Compreendo que o facto de se tratar de um promissor jovem, caído durante um jogo de futebol que estava a ser transmitido em directo pela televisão, tenha impressionado particularmente as pessoas.

Não entendo, porém, que se tenha pretendido dar ao seu funeral o carácter de um funeral de Estado.

Isso apenas se compreende numa sociedade que sobrevaloriza o futebol profissional e lhe atribui uma dimensão que, em meu entender, lhe não pertence, numa correcta escala de valores.

A forma como os Meios de Comunicação Social trataram o facto também influiu muito, penso, no que considero os tais exageros, levando a que se tivesse agido mais com a emotividade do que com a racionalidade. Emotividade que neste caso deu para aquelas manifestações e que, no domingo à noite, em Guimarães, deu para a violência.

Miklos Fehér não foi o único jovem promissor que morreu inesperadamente. Miklos Fehér não foi o único jovem que faleceu no seu posto de trabalho. E como tem reagido a comunidade perante esses outros casos?

Como se reagiu quando, na terça-feira seguinte, faleceu inesperadamente Virgílio Brito, responsável pelo complexo desportivo do Nacional da Madeira, no final de um jogo de futebol entre amigos? Como se reagiu quando, oito dias depois, faleceu, também após um jogo de futebol entre amigos, no distrito de Viseu, um jovem de 14 anos?

Nem um nem outro eram futebolistas profissionais e as suas mortes não foram filmadas pela televisão. Isso teve as suas consequências.

Impressionaram-me muito favoravelmente certas manifestações de fé vindas a público por ocasião do falecimento de Miklos Fehér. É bom que, sempre que venha a propósito, não tenhamos receio de publicamente nos apresentarmos como cristãos que somos.

Apreciei também as manifestações de solidariedade a que aquele falecimento deu aso. E faço votos para que tal solidariedade não tenha sido um gesto meramente pontual mas constitua algo que se possa ver quotidianamente no mundo do futebol. Este não pode deixar de ser também uma escola de virtudes e de valores. Porque acontecimentos ocorridos no último fim de semana não deixam de ser preocupantes, aconselho vivamente a leitura da nota pastoral «O desporto ao serviço da construção da pessoa e do encontro dos povos», publicada pela Conferência Episcopal Portuguesa em 13 de Novembro de 2003. A ela espero referir-me pormenorizadamente.




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