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O conto, nossa verdadeira moeda

1. O escudo e a Europa Quando há pouco mais de dois anos, a maioria das moedas nacionais europeias (inclusive a portuguesa) foram substituídas por uma moeda europeia comum, o euro, muitos lamentaram a perda de um poderoso símbolo nacional, distintivo de cada Estado. E com alguma razão, pois desde os alvores da Idade Média, o direito a cunhar moeda vinha sendo uma das principais manifestações de independência de um Estado em relação a outro.

N/D
3 Fev 2004

O que, transposto para os dias de hoje, significa que Portugal já não está totalmente independente em relação ao “super-Estado” Comunidade Europeia. Ora esta Comunidade Europeia é actualmente uma vaga variedade de confederação, que com o tempo tenderá a transformar-se numa exigente federação; e então sim, lá irá Portugal perder a independência, sabe-se lá por quantos anos…
Se só tivesse sido Portugal a perder a sua moeda, isso seria bastante mais significativo como sinal de perda de independência. Mas como todos os outros Estados signatários também perderam as suas moedas, substituindo-as por uma moeda comum a todas, tal não deverá ser considerado inteiramente negativo, mesmo de um ponto de vista estritamente nacionalista. E isto porque o nacionalismo português (que é um nacionalismo de nação europeia) nunca deverá sentir-se melindrado se o nacionalismo europeu crescer, mesmo que tal aconteça um pouco à sua custa… O mal é se, como aconteceu no ano passado a propósito da invasão e ocupação americana do Iraque, os Estados europeus perdem soberania para a Comunidade Europeia e esta não fala alto e a uma só voz perante qualquer seu rival do momento, como no caso eram os americanos.

2. A determinação das políticas monetárias

O desaparecimento das moedas nacionais trouxe contudo um grande problema. É que de futuro as políticas monetárias portuguesas, os déficites, as capacidades nacionais de endividamento, as taxas de juro, tudo isto passa a ser determinado por acinzentados organismos extra-nacionais, melhor dito, supra-nacionais, pseudo-tecnocráticos, afectos ao Grande Capital internacional e que ninguém elegeu. E como se isto não bastasse, estamos agora num Portugal (e numa Europa) sem fronteiras internas nem taxas aduaneiras. E tão adequadas que estas eram (que saudades!…) para defender os produtos, as empresas e os trabalhadores de nações pequenas e independentes como é o caso de Portugal. Portugal, a Alemanha, a Espanha, a França, a Itália e os outros poderiam ter substituído as suas moedas pelo euro mas continuar a ser senhores das suas Finanças. E nem era precisa muita habilidade para tal. O trágico é que isso não aconteceu.

Daí que o facto de a nossa antiga moeda se chamar “escudo” veio a revelar–se profético. Profético de que, como um verdadeiro escudo, poderia ter sido aproveitada para nos defender de ameaças cujo último alcance ainda mal podemos avaliar…

3. O escudo eclipa-se, o conto continua

Por motivos ligados à inflação que ano após ano se tem feito sentir desde Abril de 74, o escudo já mal funcionava em 2001, na prática, como moeda na-cional, melhor dito, como unidade de conta. É que, com o decorrer dos anos, o escudo foi-se desvalorizando de tal maneira, que muitas mercadorias ou salários já eram avaliados pelo povo em contos, e não em escudos (ou melhor, em milhares de escudos). E apesar da entrada do euro, continuam a ser avalia-dos ainda, primacialmente em contos.

4. Razões da sobrevivência do conto

Em primeiro lugar, o conto sobrevive porque já existia bem antes do euro e as pessoas estavam habituadas a avaliar em contos os preços mais altos.

Em segundo lugar, a relação do conto para com o escudo é de 1.000 para 1, o que, para um povo avesso à Matemática, facilita imenso a conversão de escudos em contos (5.000 escudos são 5 contos; 186.000 escudos são 186 contos; 732 milhões de escudos são 732 mil contos); enquanto que, sendo a relação do euro para o escudo de 200 para 1, tal implica que em cada conversão os algarismos iniciais passem a ser completamente diferentes (os mesmos 5.000 escudos serão aproximadamente 25 euros ou mais precisamente 24,9398948534 euros; e os mesmos 186.000 escudos serão uns obtusos 927.764,088546 euros; e por aí fora).

Em terceiro lugar, o euro é (qual dólar, libra, rande ou franco suíço) uma unidade de conta demasiado grande para a comodidade do cálculo da maioria das operações do dia-a-dia (obrigando os nossos “génios da Álgebra” a um desagradável e constante recurso a décimas e quebrados). É o caso de alguém que compra um pacote de leite num supermercado, ou um livro numa livraria, ou analisa o preço dum prato numa ementa de restaurante ou avalia o preço da portagem numa auto-estrada. O “cidadão matemático” é obrigado a controlar, convertendo em escudos. Se a moeda não fosse o euro mas o cêntimo, seria mais fácil e directo o cálculo (era um fácil “dois por um” em relação ao escudo).

Mas enquanto a inflação não “comer” o alto valor do euro, o povo tenderá a manter o esquema mental da parelha escudo-conto. E muita sorte temos nós, portugueses, de que o nosso câmbio seja bem simples, de 200 para 1 (ou de 5 para 1, no caso do conto). Mesmo ao lado, os espanhóis não têm a mesma sorte.

A quarta e última razão da sobrevivência do conto é que, precisamente como acabamos de dizer, o sistema antigo no fundo oferecia duas unidades de conta, o escudo para as pequenas somas e o conto para as grandes; e essas duas unidades de conta estavam na cómoda proporção mental de 1.000 para 1. Ora o euro não tem conseguido enraizar o cêntimo como “muleta” para os pequenos cálculos (a maioria, aliás…).

Daí que, provavelmente, o conto só desaparecerá quando a inflação tornar o escudo uma unidade de conta tão “microscópia” como no passado se transformaram o tostão, o “ancien franc” francês ou a lira italiana.

5. O velho “conto de reis”

Este tipo de hábitos mentais evolui, aliás, muito devagar. Nos anos 70 e 80, os mais velhos ainda persistiam em dizer, por exemplo, 28 mil reis em vez de 28 escudos. E estes “reis” aqui são o plural irregular da antiga moeda da Monarquia, o real. Note-se que o escudo data dos primórdios da República, criado, salvo erro, pelo fugaz ministro das Finanças José Relvas. E quando eu era criança, 25 “tostões” eram 2,5 escudos, ou 2 escudos e 50 centavos. Onde já ia o centavo, que só se contava às dezenas, chamadas “tostões”…

O escudo valia, pois, 1000 reis; e o conto vale mil antigos escudos. Daí que o conto valha 1 milhão de reis. Quem tenha lido Camilo ou Eça lembra-se de que naqueles tempos, quem tivesse 1 ou 2 contos de reis comprava facilmente uma quinta enorme, casa incluída. Com o numerário que pos-suímos hoje, o mais pobre de nós seria em Rothshild no tempo do rei D. Luís. E nem precisava de mudar de religião…




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