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A lei francesa da laicidade

Não sei exactamente que valor real o Presidente Chirac e quem decretou as censuras dos trajes e dos símbolos religiosos na França, laica e jacobina, atribuem à lei recentemente promulgada, no sentido de proibir a manifestação dessas realidades, que identificam um cidadão com uma opção de consciência fundamental – a sua religião. Esta deve ser tão íntima, que não pode dar acordo de si, não pode manifestar-se publicamente.

N/D
3 Fev 2004

As autoridades francesas aproximam-se, assim, das mais genuínas ditaduras islâmicas, que existem nos nossos dias, com toda a sua intolerância e fundamentalismo. Só que o faz em nome da liberdade, que elas parecem confundir com o laicismo.
O porquê desta medida na França, laica e jacobina, deixou surpreendidos muitos observadores, que pensavam que uma legislação deste tipo, pela sua discutibilíssima dimensão democrática, era impensável nos nossos dias num país que, neste momento histórico, já não constitui apenas uma sociedade pluralista sob o ponto de vista político, mas também social e religioso. A França parece que se encontrou, surpresa e temerosa, perante a realidade de a sua sociedade não ser, na actualidade, exactamente “francesa” na sua forma tradicional. Alguém observava, por exemplo, que as últimas selecções de futebol deste país – um desporto democrático por excelência, que cativa milhões de pessoas -, eram um mosaico racial, onde a dimensão especificamente “gaulesa” constituía apenas uma parte.

O passado colonial francês pode contribuir para compreender essa ocorrência. E só fica bem que, num desporto tão popular como o futebol, a França exponha sem preconceitos a sua realidade sociológica de hoje, onde há raças diferentes e nomes de origem diversa – incluindo os de clara ressonância portuguesa. Este facto lembra–nos a onda tão forte de emigração que a França soube acolher. Talvez nem sempre da maneira mais humanitária, embora revelando uma capacidade forte de assimilar quem a procurou, quem por aí labutou e até se fixou e é hoje cidadão dessa grande nação europeia, se não na primeira geração, pelo menos na que lhe sucedeu e aí cresceu.

E aqui há quem julgue encontrar a razão de ser desta legislação tão caricata da referida França, amedrontada e perplexa. A emigração levou a este país muitos homens e mulheres de origem muçulmana, que hoje constituem vários milhões e são uma das principais razões pela qual o fraco crescimento da França, em matéria demográfica, não é tão calamitoso e deficiente. Os muçulmanos têm filhos a um ritmo substancial, por vezes com várias mulheres simultâneas a produzi-los.

A França, laica e jacobina, que é amiga da boa vida e da moral “light”, do sexo livre e recreativo, que não tem filhos por opção comodista e burguesa, que começa a sentir um problema complicado com a sustentação de toda a terceira idade reformada, viu-se, de súbito, por esterilidade natalista, com uma parte específica da sua população em aumento progressivo, qual mancha nova que alastra impiedosamente. Os seus costumes e horizontes são completamente alheios à tradição francesa. E se a França se sente abanada por esta realidade sociológica nova, esta não entende com facilidade a razão pela qual as suas jovens, quando vão à escola, não podem usar um lenço sobre a cabeça, porque assim, tradicionalmente, o determina a sua religião. Que mal tem? Qual é o perigo?

Em nome da laicidade proíbe-se este costume. Também Hitler não permitia os símbolos religiosos hebraicos (salvo para discriminar os judeus), também as ditaduras comunistas não toleravam com frequência manifestações públicas aos cristãos, também os milionários sauditas reaccionários vetam qualquer manifestação pública de outra religião diferente do islamismo… E também a laicidade francesa não permite que se mostrem nas escolas públicas símbolos religiosos. Tudo o que, de perto ou de longe, cheire a cristianismo, a judaísmo, a islamismo, etc., é proibido! Porquê esta sanha discriminativa da liberdade religiosa dos cidadãos?




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