Fotografia:
Hipocrisias

1. Um imigrante de leste com cerca de 25 anos morreu na sexta-feira, vítima de um atropelamento mortal na Linha ferroviária do Oeste, na cidade da Marinha Grande.

N/D
2 Fev 2004

A notícia da morte, com uns três parágrafos, pormenoriza que o acidente ocorreu cerca das 13h30 e que o jovem foi colhido pelo comboio, que seguia no sentido sul-norte, quando passava numa zona destinada à travessia de peões, na Amieirinha.
Dá ainda mais um pormenor: o imigrante estava a atravessar a linha com uma bicicleta e não conseguiu desviar-se do comboio.

Como as televisões não estavam lá e não vimos o corpo esmagado pela violência do embate, esta morte quase não nos dói… Como quase não nos dói uma outra do mesmo dia, se a memória não me falha: a de um trabalhador atingido por um muro, que foi notícia breve numa das TVs. Tão breve, que não gravei o local nem o nome da vítima.

Nenhum destes trabalhadores terá secretário de Estado no funeral. Nem minuto de silêncio especialmente decidido. Em sua memória, também não se abraçarão homens desavindos, acalentados pelas tréguas passageiras de um directo televisivo…

Temos uma capacidade incrível para seleccionar as lágrimas e distinguir entre uma “tragédia” e um “lamentável descuido”.

Entre a tristeza e o “bem feito!…” vai, afinal, apenas a distância da nossa subjectividade…

Não; não critico a humanidade de um momento. Lamento, isso sim, a sua volatilidade e que tão depressa se esgote a compaixão, com a rotina indiferente a regressar nossas vidas em pouco mais de meia dúzia de segundos.

Não agimos; apenas nos agitamo-nos por uns instantes. Por isso, continuarão demasiado sós todos aqueles a quem vamos dizendo, circunstancialmente: não te esquecerei, podes contar comigo!…

Convenhamos: se os vivos não merecem esta indelicadeza, muito menos os mortos merecem o desrespeito de tantos afectos encenados.

2. Falando de outras cenas: o congresso da CGTP aprovou uma jornada de luta para o dia 11 de Março, «em todos os sectores, com acções diversificadas, incluindo paralisações e manifestações».

As razões são as de sempre: a «ofensiva privatizadora».

Considerando os sindicatos fundamentais, custa-me a perceber o radicalismo de algumas propostas.

E, sobretudo, a durabilidade de alguns sindicalistas, que há muito deixaram de ser “trabalhadores”.

Por hoje, deixemos isso e constatemos que, na paralisação que agora se anuncia, o dia escolhido já não é uma sexta-feira. Mas o 11 de Março é – recordam-se? – uma data querida para certa esquerda.
Foi por acaso?…




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