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Até onde vais amizade?

É na desgraça que se conhecem os amigos. É na adversidade que os homens se superam ou se deixam cair no fundo do poço onde o desânimo é senhor. A amizade entre amigos é tecida de compreensão. Quando um deles tropeça ou cai, é de amigo estar a seu lado para lhe amparar o desânimo, para o confortar nas horas tristes e quiçá enxugar as lágrimas do desespero.

N/D
2 Fev 2004

Não pode a verdadeira amizade virar as costas, olhar para aquele com quem privou como se fosse um desconhecido ou, quiçá, tivesse uma doença ruim como a lepra ou outra doença contagiosa. O amigo António Cerqueira, por situações que não sabemos, de todo julgar, – amigo não julga amigo -, passa um dos piores momentos da sua vida. Desde os tempos de menino e moço que nos conhecemos, diz ele, «desde o tempo em que me pediu, de um maço que eu acabara de abrir e eu lho neguei um cigarro, dizendo-lhe que só me ficavam dezanove». Os nossos trajectos foram bem diferenciados mas, sempre que o convívio entre amigos se proporcionava, ele lá estava entre nós, sem vestir a importância política de que usufruiu durante muito tempo. Outros mais cedo se apartaram, cuidando de cavar distancias e biombos.
Os que se sentem promovidos cuidam das suas opacidades; têm medo das mistura com os comuns. Tive a dita ou a coragem de nunca lhe pedir nada, de nunca precisar de me servir da sua importância e ou influência. pessoal e política Por isso estou aqui sem compromisso, de alma lavada, para falar abertamente e sem quaisquer reservas do que sinto. Nenhum dever de gratidão me norteia ou condiciona. Vejo com muita tristeza, que não admiração, – já nada nos espanta nos homens, – aqueles que dantes lhe lambiam as botas e lhe puxavam a casaca, afastarem-se com medo de que os identifiquem com o Cerqueira. Aqueles que das suas mãos receberam o benefício, praticaram, pelos vistos e desde logo, a “véspera da ingratidão” porque, com o mesmo avontade e despudor com que dantes lhe batiam na aldraba da porta para mendigar favores, com a mesma sem vergonha fogem agora da soleira. Têm medo até da sombra do António Cerqueira. Os lacaios são assim, enquanto dura a graça muitas são as palminhas, depois que chega o levantar da mesa, muitas são as palmadas. São estes os ratos que abandonam os navios.

Que posso desejar a um amigo? Se há lugar a expiação, isso lhe chegará, a alguns até lhes sobra, para aguentar as privações a que será sujeito. Se o castigo é desproporcionado, ou se a culpa não existe, é necessário, caro amigo Cerqueira, que suportes todas as contrariedades com a mesma coragem com que aguentaste outras adversidades passadas. A resignação é um bálsamo que não um remédio, bem a temos experimentado… Enquanto actua como refrigério alivia a dor. A amizade não pode ficar à porta espreitando pelo buraco dos circunstancialismos. Outrossim das convicções. Tem de ter a coragem de se mostrar com a hombridade de pessoa de uma “só cara, dum só parecer” e ser capaz de se afirmar perante todos como ser em solidariedade por inteiro. Estou contigo, amigo Cerqueira, estou contigo nestas horas amargas e talvez muito, muito lentas na ampulheta da ânsia; desejamos sinceramente que passem depressa. Se te serve de consolo, sabemos que outros sentem de igual modo a ausência da tua presença. Julgo que seria cobardia ficar-mo-nos encolhidos e tímidos perante a tua situação. Se fingíssemos que ela não existe, seríamos uma sombra fingindo de figura. Há prudências que se assemelham a cobardias. Até onde vai a amizade? Até à nobreza dos sentimentos puros.




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