Fotografia:
Padres sábios, santos e… servos

Por ocasião do Dia do Seminário de Setúbal, em Almada, dei comigo a reflectir sobre alguns aspectos mais ou menos relevantes – queiram desculpar esta presunção aqueles que porventura não sintam premente esta partilha/reflexão – sobre a dimensão socio-vocacional da vida sacerdotal (vulgo “os padres”), da sua preparação (humana, intelectual e cívica) e das implicações e/ou consequências tanto no mundo como na Igreja (dizemo-lo, sobretudo, na incidência católica) hoje.

N/D
30 Jan 2004

É um facto que a provocação – talvez mais do que promoção! – vocacional tem evoluído nos últimos tempos.
Já lá vai o tempo em que um adolescente – em muitos casos ainda na fase de criança – saía da casa dos pais – digo-o por experiência vivida aos dez anos – para ingressar no Seminário: longe do seu habitat, cerceado dos laços familiares, incluído no número (talvez anónimo) de dezenas e centenas de outros procedentes do ambiente rural em ordem a virem a ser “padres”, acrisolando a vocação, cultivando-se na arte do sacrifício, aprimorando a virtude e crescendo «em ciência, em idade e em graça»… diante de Deus e na avaliação dos superiores.

Agora – menos de duas décadas transcorridas – vemos chegar aos Seminários homens que já tinham os seus cursos, a sua profissão… em busca o que Deus quer agora deles. Muitos nem tiveram uma formação cristã de família – são eles que o testemunham com verdade e sem discurso heróico – mas sentem-se escolhidos para a missão em serviço de Igreja.

Já lá vai o tempo em que o “ser padre” era promoção pessoal, familiar ou social, particularmente em meios mais pequenos e com maior expressão religiosa na vertente popular. Talvez estejamos, pelo contrário, a assistir à despromoção pessoal, familiar e social dos candidatos.

Assim se terão purificado as intenções, os comportamentos e as funções dos mais diversos intervenientes.

Seguindo os itens do título supra, eis a nossa reflexão:

* Padres sábios – é habitual haver padres com outros títulos académicos – tanto de universidades civis como de escolas ligadas à Igreja – dão mais credibilidade aos seus titulares, seja como corpo ecle-siástico seja no campo pastoral. Há dioceses onde essa responsabilidade – sim, porque saber mais não pode ser penacho, mas deve revestir a capacidade para servir melhor! – é assumida na apresentação dos seus padres. No entanto, este saber tem de ser actualizado, usando as mais diversas modalidades. Como o fazem os padres hoje? Que lêem ou escrevem? Têm tempo para pensar? É preciso estar disposto a querer aprender sempre!

* Padres santos – é inerente à sua vocação cristã e missão sacerdotal. É na medida em que contactam com os outros que são capazes de apreciar a grandeza do ministério que Deus lhes confiou. A santidade é possível, mas não está em saldos: cuida-se, aprecia-se, molda-se (ou é-se moldado em correspondência activa à acção do Espírito de Deus) e, sobrenaturalmente, nela se cresce… até à hora da morte. O mundo precisa de padres santos e santos que sejam padres!

* Padres servos – «no fim de terdes feito tudo o que vos foi mandado, dizei: somos servos inúteis, só fizemos o que devíamos fazer»! Não há tempo nem espaço para borboletolatria, isto é, essa capacidade de fazer com que andem à nossa volta, aplaudindo, adulando ou mesmo criando círculos sem saída. Quantas vezes é difícil exercitar-se o carisma do celibato pela confiança em Deus e para a edificação dos outros! Quantas vezes é difícil viver de coração indiviso, de inteligência arejada e vontade livre! Quantas vezes as tentações são inúmeras e a fraqueza humana forte!

Precisamos de padres sábios, santos e servos, hoje, na Igreja e para este mundo.




Notícias relacionadas


Scroll Up