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Meu caro Zé

1. Quanto mais o país carece de elevar a auto-estima e afirmar-se pela positiva, mais o telelixo avança. E nem os frequentes e inflamados discursos presidenciais contra a lamúria, o miserabilismo e o pessimismo chegam a ser a desejada pedrada no atoleiro. Será que caem em saco roto, ou o povo está surdo como uma porta?

N/D
28 Jan 2004

Entende-se por telelixo alguma programação que certas televisões teimam em debitar-nos. E que, por ironia do destino ou dos homens e instituições, é uma parte substancial dessas famosas grelhas que fazem as delícias de uns quantos directores e apresentadores e garantem as audiências.
Então, meu velho, a nível de telejornais, a coisa é mesmo de caixão à cova, arrasando pela negativa e desencadeando nos telespectadores, mais atentos e responsáveis, autênticos reflexos de desilusão e nojo! Conteúdos tão rascas, tão desinteressantes e chocantes pelo seu sensacionalismo e mixordice que é caso para perguntar: estamos mesmo no terceiro mundo ou para lá caminhamos?

Depois, aquele massacre permanente para prender os telespectadores com chavões do género homem mata mulher e filhos e põe termo à vida, já a seguir e até ao final da emissão, quando, somente, a notícia é tratada e com exaustão! E numa descarada e ignóbil violação da privacidade e dos sentimentos pessoais mais íntimos!

E que dizer da duração dos mesmos telejornais? Uma vergonha, uma afronta! Porque, quando o essencial da informação se passava em 15 ou 20 minutos, as emissões empatam uma hora ou mais de escândalos, lugubridades, miséria, palha!

2. Ora, caro Zé, a pergunta é óbvia: a quem aproveita tal telelixo? Tão despudorada informação? Só aos patrões de tais canais que, explorando a falta de cultura do povo, vão conquistando audiências e liderando o mercado fértil e milionário da publicidade! E pouco ou nada interessados na produção de programas, verdadeiramente informativos e formativos, que ajudem a elevar o nível cultural e cívico do país!

Ninguém duvida que, para além da crise económica, mergulhamos numa profunda crise moral e espiritual! E a que não é alheia a cultura da indiferença, do bota-abaixo, do deixa-andar, tão ao jeito do povo e ao gosto dos políticos! E a que só elevadas doses de confiança, determinação, criatividade, optimismo, inovação e competitividade, porão cobro!

Todavia, meu velho, este esforço, este levantamento patriótico passa muito pelas televisões que são, sem dúvida, a tal janela que mudou o mundo, mas que, a nível nacional, o têm mudado para pior!

Olha, Zé, a brincar que o digas, mas se é para continuarmos assim, sem raça nem alma, mais vale pedirmos perdão aos espanhóis por todas as Aljubarrotas de antanho e aceitarmos a integração cultural, já que a económica é facto consumado! Depois, eles até são já nuestros hermanos?!

Venham daí esses ossos e até de hoje a oito!




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