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Prece à Virgem Santíssima

Tu por Deus entre todas escolhida,Virgem das virgens, tu, que do assanhado Tartáreo monstro, com teu pé sagrado, Esmagaste a cabeça entumecida: Doce abrigo, santíssima guarida De quem te busca em lágrimas banhado, Corrente com que as nódoas do pecado Lava uma alma que geme arrependida; Virgem, de estrelas nítidas coroada, Do Espírito, do Pai, […]

N/D
26 Jan 2004

Tu por Deus entre todas escolhida,Virgem das virgens, tu, que do assanhado
Tartáreo monstro, com teu pé sagrado,
Esmagaste a cabeça entumecida:

Doce abrigo, santíssima guarida
De quem te busca em lágrimas banhado,
Corrente com que as nódoas do pecado
Lava uma alma que geme arrependida;

Virgem, de estrelas nítidas coroada,
Do Espírito, do Pai, do Filho eterno
Mãe, filha, esposa, e mais que tudo amada:

Valha-me o teu poder e amor materno;
Guia este cego, arranca-me da estrada,
Que vai parar ao tenebroso inferno!
(Bocage, Obras poéticas)

Éum belo poema este que saiu do
famoso vate português, Bocage, com
um tema de índole religiosa.

Conhecido popularmente como um poeta repentista, é sobretudo um autor com um lugar relevante na História da Literatura Portuguesa.

Manifesta-nos no soneto transcrito a sua fé e devoção à Santíssima Virgem, recorrendo ao seu «amor materno» para que o arrancasse do caminho que o poderia arrastar «ao tenebroso inferno».

O poeta revela-nos a tensão existente entre a fé católica e o ideal racionalista, então em voga, e sobretudo o conflito entre a vida boémia que levava e o ideal moral que existia na sua consciência.

Este poema raramente aparece nos estudos académicos secundários e superiores, pois o que mais avulta é uma literatura bocagiana de natureza erótica ou então de temas neo-clássicos e pré-românticos.

Mas é expressivo da sua cultura católica segundo a qual destaca a importância da Mãe de Deus na vida dos cristãos e dos homens em geral. Realça também a oposição entre Deus e o diabo, entre a Virgem e o «tartáreo monstro», a qual, com seu pé virginal, lhe esmagou «a cabeça entumecida».

Acredita no mistério da Santíssima Trindade, com o qual relaciona a Virgem como Mãe, Filha e Esposa.

Utiliza nesta relação uma figura de retórica tão do agrado dos poetas barrocos – o quiasmo, que consiste num cruzamento de vocábulos.

A terminologia do soneto integra-se perfeitamente num mundo semântico de Elmano relacionado com o “locus horrendus”, conceito dominante nos literatos do Romantismo, nomeadamente com os termos de «inferno», «tartáreo», «tenebroso»; e ainda com o do amparo maternal onde os mortais encontram descanso, como os bebés nos seios das suas mães: «doce abrigo», «santíssima guarida», «amor materno».

Embora o poeta sadino se dedicasse a outras espécies literárias, nomeadamente fábulas, odes, epigramas, canções, é mormente nos sonetos que atingiu o mais alto grau de literato. Dele afirmava António José Barreiros: «em nenhum dos géneros acima citados mostrou Bocage quanto valia o seu estro poético, verdadeiramente genial. Foi no soneto que o infeliz vate excedeu todos os que o precederam e se guindou a culminâncias que outros no futuro dificilmente atingiram».

Que a Santa Mãe de Deus, que ele amava com respeito e invocava confiante, lhe tenha sorrido no desenlace final e conduzido aos pés do Deus três vezes santo!




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