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No mundo das contradições

Uma vez mais o governo, dito do centro direita, decretou o congelamento dos vencimentos e aposentações acima dos mil euros. Num ano de crise igual ao que findou, não sabemos quem poderia esperar que as coisas fossem diferentes. Há sempre lugar para o sonho mesmo quando a realidade se nos apresenta diante do nariz.

N/D
26 Jan 2004

Não foi isso que nos surpreendeu; o que nos deixou sinceramente admirados é verificar que os partidos da esquerda, que por ideologia adoptam a igualdade e a existência de sociedades sem classes, estão contra esta política de aumentos que dá a quem ganha pouco um pouco mais e não dá nada a quem ganha o suficiente.
Parece existir aqui um paradoxo doutrinário, ou, se quisermos, existe um real divórcio entre a teoria e a prática. Então não acham estes senhores que é da mais elementar justiça aumentar a quem ganha miseravelmente e não dar nada aos restantes? Parece que não pensam assim ao vermos a contestação generalizada dos sindicatos e partidos da esquerda. Afinal, como é essa doutrina de igualdade e o sonho da existência duma sociedade sem classes? Ficou na letra ou virou treta só porque nos mexeram nos bolsos?

Uma senhora reformada com 1800 euros (360 contos no velho escudo português) jurava a pés juntos que nunca votou, mas agora é que nunca votaria, no actual governo, «porque há dois anos que não sou aumentada». Esta senhora diz-se da esquerda e foi, em tempos, revolucionária de «longa data» e das que esteve sempre «inserida no processo». Ora, esta senhora indignada não pode prescindir de 2 por cento de aumento (36 euros mensais), e não faz contas a que se lhe dessem o mesmo que ao salário mínimo ficaria cada vez mais distante deste. Não se preocupe, minha senhora, que vai poder continuar a fazer as suas férias no estrangeiro, mesmo sem os 36 euros de aumento… Que nos digam que 2 por cento é uma migalha para quem tem tão pouco estamos de acordo. Nem sequer sonhamos como se pode viver com trezentos e poucos euros! Sem ser Jesus também há quem saiba multiplicar os pães.

Agora que nos venham dizer que os de cima também deveriam ser aumentados na mesma proporção é que não compreendemos esta noção de justiça social. Neste nosso país político há coisas contraditórias: parece que quem nos governa faz política de esquerda e quem é de esquerda adopta políticas da direita. Estão trocados os termos, ou estão falidas as ideologias de base do xadrez político nacional? Também não percebemos patavina sobre os aumentos escandalosos dos gestores públicos. É uma outra contradição que não podemos aceitar. Todos devemos pagar a crise e aqui não pode haver uns portugueses mais iguais que outros. Expliquem-nos o que se passa com esses privilégios porque queremos perceber bem como é que esses gestores passam a ricos da noite para o dia e nós continuamos pobres de noite e de dia. Estamos todos em tempos de crise, ou não estamos? O povo não é estúpido e compreenderá se lhes disser a verdade. Não queremos entender que tenhamos no meio de nós príncipes e princesas sustentados pelo Orçamento de Estado. Isto, para lá da incredibilidade e do insólito, é uma afronta.




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