Fotografia:
Cultura… inculturação ou incubação espiritual?

Para que servem poetas em tempo de indigência?Mas eles são, dizes, como sacerdotes santos do deus do vinho,
Que em noite santa vagueavam de terra em terra. (Hölderlin)

N/D
23 Jan 2004

Para melhor entender a cultura contemporânea europeia, nada melhor do que a literatura de alguns autores europeus, que trataram temas complexos, em épocas dolorosas e de grande convulsão social, política, ou mesmo na Guerra Fria. Não a portuguesa, cuja maior parte é de diversão e entretenimento, de burlesco atrevido e sem sabor… Os grandes temas passam à margem da nossa literatura. Será pela grande cultura dos literatos?!…

Nesses trata-se de uma nova equação do problema relativo à Fé e Cultura.

Depois do «desencanto do mundo» descrito por Max Weber, assiste-se ao reencantamento da pós-modernidade. Enquanto muitos clérigos, há dezenas de anos, pareciam fascinados pela política, invencivelmente atraídos por um ideal laico, afirmando a autonomia das realidades terrestres, aparecem agora de novo as raízes espirituais. E apesar de rupturas institucionais, cresce um movimento religioso impressionante, mesmo tomando o da cultura popular: são cada vez mais os que se voltam para a oração, sobretudo jovens e mulheres.

Segundo um docente universitário de Turim, não só entre os cristãos como também judeus e muçulmanos, reza-se cada vez mais, embora separados uns dos outros, com um sincretismo evidente, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, entre os mais jovens, de mistura com o Hinduísmo, Budismo e Novo Testamento.

Sobretudo entre as mulheres, a prece diária é importante para mais de 68 por cento. Dizem que isto lhes dá a sensação de não se sentirem tão sós… Mas que grande companhia a dos homens?!…

Segundo esse sociólogo, a oração permite aos homens «reencontrarem-se e reconciliarem-se consigo próprios». Há, por assim dizer, um apelo ao mistério, e um desejo inextinguível de infinito subsiste no coração do homem: Deus não morreu, embora esteja escondido ou asfixiado na cultura dominante ou circundante.

Nos Irmãos Karamazov é o místico que suplanta e vence Ivan, o terrível. E a Igreja renasce no coração das cidades, como fonte de esperança. Entre os muitos testemunhos de confidências terríveis está o de Tatiana Goritcheva, onde Olivier Clement diz num prefácio que, contra a mentira da cultura oficial ateia russa, se salientou uma contra-cultura concitada por um verdadeiro aprofundamento cultural: as técnicas de gnose científica, do orientalismo, a descoberta dos valores cristãos da velha cultura russa, no esplendor beato dos ícones, e a beleza do encanto das florestas da Sibéria, nos livros de Dostoievsky.

Goritcheva, que foi responsável durante 17 anos das Festas da Juventude Comunista (Komsomol) e hoje vive em Paris, docente de Filosofia, conta a sua asfixia espiritual nesse tempo, semelhante à náusea descrita por Sartre, começada em Camus e Nietzsche, à beira do desespero. Foi a tomada de consciência de Deus como Pai que «mudou tudo em mim e à minha volta. Descobrindo Deus, comecei a viver» – diz ela a uma amiga. O prefaciador do seu livro escreve: «Eis um livro sobre a alegria.

Donde vem esta alegria? A minha geração, que conheceu grandes esperanças ligadas à denúncia do estalinismo, consagrou-se à criação de uma cultura nova e livre».

«Nós, ajunta ela, não tínhamos nem cultura, nem religião nem educação. Durante meio século o mais desumano e nihilista de todos os poderes destruiu todos os valores tradicionais da cultura e da ética.

Nascemos num deserto, uma amoralidade universal, num vazio espiritual». Conta mesmo a sua conversão com Serge Stratovsky, um poeta agnóstico, profundamente tocado pelos problemas da cultura: «ele não podia não ver, diz ela, que a religião tinha sido um terreno propício para a cultura europeia. Foi ele que propôs mesmo o estudo de criar um seminário de filosofia religiosa para estudar os Padres da Igreja, os teólogos contemporâneos».

Acrescente-se que os 15 mosteiros que existem na União Soviética são ainda os verdadeiros centros de vida espiritual, sem dúvida, mas também cultural. Muitos escritores, poetas, pintores, mesmo sábios investigadores aí vão meditar, rezar, pedir bênçãos, apesar da “militsia”. Diante de um tal estado de paralisia espiritual, não temos outra solução que o Cristianismo.

Que diriam certos corifeus, que falam de cultura sem religião como de religião sem cultura, ainda que exorcizando bruxas, ou cobrindo-se de práticas religiosas espirituais ou espiritualistas, em que num sincretismo juntam macumba, disco, kamasutra e espiritualidade?




Notícias relacionadas


Scroll Up