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Festas religiosas

Com data de 4 de Janeiro publicou D. Jorge Ortiga duas notas que me parece merecerem particular atenção. Uma diz respeito às festas religiosas e outra, à visita pascal. Hoje vou referir-me à primeira e depois falarei da segunda.

N/D
22 Jan 2004

O Cristianismo é, ou deve ser, a Religião da alegria. Cristão nunca foi sinónimo de misantropo ou de sorumbático. Se algum dia o pareceu é porque, em lugar de se viver o Cristianismo, se manifestou uma caricatura dele.
Cristianismo e festa, de modo algum são incompatíveis. Até na liturgia há dias classificados particularmente como festas. E ao longo da história sempre os cristãos procuraram promover festas.

São necessárias as festas, é preciso haver quem as organize e faz falta quem assinale devidamente os dias festivos.

Na prática existem três espécies de festas: as exclusivamente religiosas, as profanas, as que têm elementos religiosos e profanos.

Muitas das festas que pessoas da Igreja promovem encontram-se nesta última categoria. Não têm um programa exclusivamente religioso mas proporcionam também momentos de diversão e de lazer.

E nada há a opor se as actividades de divertimento não destoarem; se não estiverem em contradição com os princípios do Evangelho ou não forem contra os ensinamentos do Magistério da Igreja.

A razão de ser da Nota do Arcebispo Primaz está nos abusos que por vezes surgem e a que os cristãos, coerentemente, devem pôr cobro.

É imperioso que a programação religiosa das festas seja celebrada com dignidade.

É um abuso e uma mentira apresentar como religiosa uma festa que na sua programação nada tem de religioso.

É uma incoerência grave haver cristãos que promovem festas religiosas cujos momentos de diversão apontam para um estilo de vida tipicamente pagão.

Não me parece correcto que as festas religiosas sejam promovidas à revelia da autoridade religiosa local, que é o pároco.

Não me parece correcto que os organizadores de festas ditas religiosas se julguem donos dos donativos da comunidade, não prestem contas à comunidade, esbanjem dinheiros da comunidade, procurem impor as comissões que lhes vão suceder.

Não me parece correcto que em festas ditas religiosas se não dê relevo à celebração da Eucaristia, e se não dê às pessoas a oportunidade de se prepararem para elas mediante a celebração individual do sacramento da Reconciliação, que pode ser integrada numa celebração penitencial.

Não me parece correcto que as eucaristias de festas ditas religiosas sejam «abrilhantadas» por um coro mais preocupado em dar um concerto ou em se exibir do que em animar a assembleia e procurar que esta também cante.

Não me parece correcto que festas ditas religiosas não incluam – através da homilia ou do sermão devidamente preparados – uma reflexão tendente a que se assimile a mensagem anexa ao mistério ou ao santo que se celebra e a constituir um apelo à conversão.

Não me parece correcto que nas festas ditas religiosas as procissões mais pareçam um cortejo folclórico do que uma manifestação de fé ou um momento privilegiado de catequese.

Não me parece correcto que em festas ditas religiosos as imagens apareçam cobertas por notas do banco.

Não me parece correcto que em festas ditas religiosas surjam pagadores de promessas que mais parece aproveitarem a oportunidade de se mostrarem ou de darem espectáculo do que de manifestarem a Deus ou aos santos a sua gratidão.

Por estas e outras coisas é muito oportuna a divulgação da Nota Pastoral do Prelado Bracarense.

Sei haver costumes arreigados nas pessoas e nas comunidades. Sei ser difícil – e até, talvez, desaconselhável – cortar de um momento para o outro com certas anomalias. Mas é necessário levar as pessoas a reflectirem; a tomarem cada vez mais consciência do que deve e não deve ser uma festa religiosa. Faz falta criar ambiente para que, aos poucos e poucos, as coisas mudem.




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