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Somos “gandes” ou não?!

É necessária por vezes alguma força de vontade para se pôr de parte o livro de cabeceira (ou do sofá…), especialmente se o seu conteúdo estiver a interessar deveras. (Aliás tenho para mim que é como estar perante uma caixa de chocolates para quem é guloso: ou se saboreiam lentamente ou se apanha uma indigestão). Talvez valha a pena aquele esforço de contenção, por exemplo para abrir o infindável “romance” da vida e ler um ou dois capítulos. É o que (me) proponho com as linhas que se seguem.

N/D
20 Jan 2004

“Vamos” até uma pequena aldeia algures no interior do país para apreciar uma cena sempre actual, enquanto houver crianças e adultos… Aquelas cedo acham que já são crescidas; e estes nunca mais acham que elas o são. (E quando se trata da mais nova, o sentimento chega a extremos:
«Coitadinho(a), que vai sair agora de casa para estudar» na universidade. Mas já me estou a perder em divagações e a afastar–me da “leitura” inicial).

1. Não entendo os crescidos quando dizem que ainda não temos idade para uma determinada coisa…
(Vocês os dois ainda são muito pequeninos para irem à missa; tu ainda só tens cinco anos e o teu irmão é ainda um bocadinho mais pequeno. Por isso ficam em casa a tomar conta do bebé que está no berço a dormir. «Eles nunca mais chegam, por isso vamos lá ter com eles»; e lá seguem rua fora a caminho da igreja, onde entram ela com a sandália direita no pé esquerdo e vice-versa e ele com o casaquito de pijama por ela metido à força nos calções de todos os dias).

2. … Mas que dizem que já somos grandes para outras.
(Onde é que vocês estiveram metidos toda a manhã, que já andávamos aflitos à vossa procura? De onde vêm assim tão cansados e com esses vossos sachinhos de jardim ao ombro?

Então vocês andavam sempre a dizer que não ligávamos aos “tabalhos” do campo; por isso nós fomos ver as “popiedades” da família. Afinal já somos “gandes” ou não?)

3. Hoje vão vocês os dois buscar o leite à vacaria. Está aqui a leiteira e é o litro e meio do costume.

A ida é feita a saltitar, com a vasilha a baloiçar ainda mais, segura pela pegadeira. O regresso é a passo.

«Temos que ir com cuidado para não entornarmos o leite; se não, está o caldo entornado quando chegarmos a casa. Anda mais depressa».

«Não posso, que isto pesa muito».

«E se metêssemos isto pela asa? Tu pegas de um lado e eu pegava do outro», ideia que foi prontamente aceite.

Só que, dado o primeiro passo, a frágil palha seca naturalmente não aguentou o peso e… «E agora o que fazemos?», ouviu-se a duas vozes.

P.S. – Na sua inocência, as crianças são às vezes uma delícia quando não entendem a ironia das pessoas crescidas. Foi o que sucedeu por exemplo quando, ao entrarem em casa, aquele adulto ficou momentaneamente para trás a ver se havia correspondência e, vendo a respectiva caixa vazia, exclamou: «Vai buscar um saco para levar este correio todo». E não é que a criança mais pequena da família a ele se adiantou e foi mesmo buscar um saco de plástico?!




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