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Futebol e tremoços

A vida, como o espelho, tem duas faces. Tanto se apresenta como um mar de frescas e viçosas rosas, como não passa dum emaranhado de espinhos, onde «os degredados filhos de Eva» pedem à Virgem clemência e ajuda, nas dificuldades do desterro.

N/D
20 Jan 2004

É que cada pessoa tem a Salve Rainha que reza!…
De facto, se alguns dias se apresentam alegres e buliçosos, espelhando alegria e repartindo satisfação, outros há que nos surgem tão tristonhos e sombrios que, para se contemplar um raio de sol no firmamento ou um lampejo de alegria nas ocupações quotidianas, é necessário fazer um esforço sobre-humano.

E, quando o sol se esconde e a alegria e se esquiva, costuma o homem recorrer ao foro psíquico, onde procura o mito e a alucinação, que o levem a alienar-se de tudo o que seja apoquentação e o faça esquecer as coisas menos agradáveis da vida.

É esta uma das razões pelas quais muitos homens se refugiam no «futebol e tremoços» e muitas senhoras ocupam o tempo com «bolinhos e telenovelas».

Ora, quer o gozo alienativo do futebol, quer o sacrifício «gostoso» do tremoço, não passam de uma espécie de droga, que deixam as pessoas num estado de quase inconsciência, perante a dura realidade da vida.

Presentemente, o Euro 2004 funciona para muitos portugueses como um deslumbramento, que os leva a esquecer as mais prementes realidades da vida nacional e, quiçá, a comprometer o futuro económico do país?

Pois, vá alguém dizer, a tantos adeptos do desporto-rei, que esta obsessão pode ficar cara, se não no presente, pelo menos, no futuro dos portugueses?…

Vá recordar-lhes que a Holanda e a Bélgica, o Japão e a Coreia, nações muito mais ricas e poderosas que a nossa, perante o mesmo fenómeno, se uniram para organizar torneios, mais ou menos, semelhantes?…

Responderão que preferem alimentar a paixão desportiva, ainda que… a «tremoços e azeitonas».

Se mudarmos de campo e analisarmos situações análogas, veremos que os «bolinhos e as telenovelas» ocupam o mesmíssimo lugar, com idênticas frustrações, nas alienações femininas.

À peça televisiva séria e construtiva, ao programa formativo e promocional, a parte feminina da nação prefere a futilidade da telenovela ralhada, onde o mexerico diverte e a intriga galvaniza.

Desta forma, uma nação entra no reino das inutilidades e da ineficácia.

Torna-se, por isso, muito difícil resolver os assuntos mais prementes do país, bem como proceder à promoção social da nação e ao melhoramento do nível de vida da população.

A alienação tira o incentivo ao trabalho e o empenho à realização pessoal.

Eu – já gostei mais!… – mas ainda gosto muito do futebol.

Contudo, perante a crise que se verifica em sectores vitais da nação, como na saúde, na educação, etc., não sou tão paranóico que não ache que, em lugar de dez estádios novos, se deviam mandar construir apenas cinco e o restante dinheiro seria empregue em hospitais e escolas.

Agradar-se-ia, assim, a gregos e troianos.




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