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Cuba, cinco anos após João Paulo II: tudo como dantes…

Sabemos, porque a história no-lo ensina, que os regimes comunistas nunca foram amigos da liberdade. Só souberam dominar os povos sob a sua tutela, através duma ditadura doentiamente sufocante, quer da vida social, quer da vida privada. Controlando tudo, desde a intimidade às estruturas que permitem a vida dum país, aqui se inclui a prática religiosa das pessoas.

N/D
20 Jan 2004

Há cinco anos, João Paulo II foi a Cuba. Uma esperança se levantou então. Mas se algo mudou, a verdade continua a ser negra e, como observava há pouco uma articulista, «a liberdade religiosa brilha pela sua ausência, ainda que exista liberdade de culto» (Palabra, n.º 478, Janeiro de 2004, p. 6).
Quando o veterano ditador Fidel de Castro tomou conta do poder em 1959, havia em Cuba mais de 700 sacerdotes; actualmente, restam 300. As congregações religiosas diminuíram também significativamente: de 158 para 43, as femininas; de 87 para 12, as masculinas. Por isso, não admira que o número de religiosas, em relação às mesmas datas, tenha descido de 2.000 para 600. De notar ainda que a população da ilha cresceu cerca de cinco milhões de habitantes, entretanto.

Houve momentos mais complicados da vida da Igreja cubana. No final dos anos setenta, por exemplo, coagiam-se as crianças a não serem católicas e aos jovens crentes vedava-se-lhes o acesso à universidade. Fecharam-se igrejas e muitos sacerdotes foram expulsos do país. Outros, juntamente com leigos empenhados, tinham como destino um campo de concentração (o regime é exímio e pródigo neste particular), que compartilhavam com toxicodepentes e homossexuais.

Histórias como as duas que se seguem são abundantes e elucidativas: o professor, numa escola, pergunta quantos dos alunos presentes iam à missa ao domingo. Uma miudita de oito anos, espontaneamente, sentada na primeira fila, levanta o braço. Depois, com timidez, olha para trás e verifica que os seus colegas de fé, com prudência, ficaram quietos. Chora imediatamente. Em casa, o pai tenta consolá-la e, sobretudo, envida todos os esforços para que a filha não seja expulsa da escola. Noutras circunstâncias, um professor, agora seminarista, na altura catequista da sua paróquia, recebe um grupo de inspectores na aula. Um aluno ergue o indicador e pergunta-lhe – frequentava as suas lições de catequese – qualquer coisa relacionada com esta actividade para essa semana. Foi o suficiente para ser objecto de uma profunda investigação e, claro está, não pôde, posteriormente, ocupar um posto de chefia na sua carreira.

As ditaduras comunistas, na sua desumanidade, são patologicamente desconfiadas e férteis em erguer circuitos burocráticos, espiolhados e espiados por agentes do sistema, que levantam castelos de dificuldades a quem queira fazer alguma coisa. Por exemplo: o regime “castrista” sente uma espécie de alergia visceral à construção de novos templos ou à restauração dos que já havia. Deste modo, qualquer tentativa nesse sentido esbarra com muralhas oficiais quase sempre insuperáveis. Eis o que diz um bispo: «por norma geral, o Estado não concede autorização para a reabilitação destes edifícios que, pela sua deterioração com o tempo, unida ao seu encerramento – em muitos casos imposto pelo Governo -, se encontram num estado lamentável. Mas os problemas não acabam aí, já que a falta de material de construção em toda a ilha é óbvia, e conseguir um punhado de tijolos constitui uma autêntica odisseia».

Não se pense, porém, que os problemas se circunscrevem apenas à construção de igrejas. Todo o sistema é uma apertada malha de burocracia asfixiante, que visa controlar os cidadãos até à medula.

Devem funcionar de acordo com as directrizes do regime comunista e só dentro destes parâmetros.

Assim, se um cidadão quer comprar um carro, um frigorífico ou um aspirador – isto no caso de conseguir dólares – tem de pedir autorização ao Estado. Se quer realizar uma viagem ao estrangeiro, tem de pedir autorização. Se quer mudar de casa, tem de pedir autorização. Se pretende mudar de profissão, tem de pedir autorização. E nem se fala se deseja criar uma associação, ter uma página na “Internet”, iniciar uma biblioteca privada ou instalar uma antena parabólica na sua casa. Tudo está regulamentado pelo aparelho burocrático do Estado, que concede ou não autorização de acordo com as directrizes que os mentores do sistema determinam.

Cuba está, pois, mais ou menos na mesma. Não evoluiu, não se liberalizou, não se abriu, como há cinco anos se supunha. É que, para isso, o regime devia ter um pouco mais de apreço pela liberdade humana. E um sistema comunista não sabe o que isso é.




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