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Cada vez mais raro

Um acontecimento raro nos dias que correm: a meio da semana que passou, de manhãzinha cedo, é conhecida a notícia na sede de Paris da agência Reuters: a direcção da agência comunicava que decidira despedir um dos jornalistas, com a idade de 54 anos e 34 de casa. Motivo: “razões económicas”.

N/D
19 Jan 2004

Os cerca de cem colegas mobilizam-se de imediato, aprovam quase por unanimidade uma greve de solidariedade, que prosseguia três dias depois, com a participação de colegas de outras redacções da agência. Numa medida que consegue dividir os grevistas, a direcção da Reuters apresenta aos sindicatos a proposta de recuar no despedimento, desde que os trabalhadores que não tivessem gozado todos os dias de férias relativos a 2002 (!) aceitassem prescindir desse direito.
Entre os que pretendiam evitar o despedimento do colega que dificilmente voltaria a encontrar trabalho e os que optavam pela radicalização, exigindo dos dirigentes que prescindissem de auto-aumentos alegadamente vultuosos e carros de luxo, o conflito mantinha-se neste fim-de-semana.

O que é raro e surpreendente, neste caso, é a reacção imediata e solidária dos colegas. Não é, infelizmente, o despedimento, selectivo ou não, de pessoas que sem manifestarem qualquer inadaptação ao trabalho, são pura e simplesmente chutadas para o olho da rua, em circunstâncias que chegam a ser desumanas e quase criminosas.

O preocupante é que esta insensibilidade à humanidade e à dignidade de cada pessoa está, cada vez mais, a fazer escola. Nas empresas, nos hospitais, na Função Pública – as tais “razões económicas” impõem-se a quaisquer outras. E o mais grave é quando, perante uma orientação que vem de cima, aparecem, nas instâncias intermédias, figuras que, para dar nas vistas, mostrar serviço ou pura e simplesmente para safar a sua pele, se tornam “mais papistas do que o papa”. É verdade que há, em alguns casos, opções e dilemas muito difíceis para quem gere uma empresa e o caminho do mal menor pode ser aceitável, quando se trata de impedir o mal maior. Mas já notou o leitor como é tão raro, perante as dificuldades, seguir o caminho da solidariedade e da partilha, em que todos – empresários, dirigentes, trabalhadores – se sacrificam para salvar a empresa? Porque será?

Nota aos leitores – Interrompo aqui uma colaboração semanal ininterrupta com o Diário do Minho, que teve início em Janeiro de 2001. Agradeço ao director deste jornal, que me convidou a escrever e agradeço igualmente aos leitores, especialmente àqueles que tiveram a iniciativa de me fazer chegar críticas e comentários ao que fui escrevendo.




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