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Ricos, gordos e não muito felizes

Ricos, gordos e não muito felizes” tem sido um dos títulos a que a imprensa tem recorrido para dar conta da edição de “Estado do Mundo 2004 – A Sociedade de Consumo”, um recém-apresentado relatório do Worldwatch Institute, que todos os anos avalia a saúde do planeta. O resultado do trabalho não é tranquilizador.

N/D
18 Jan 2004

Examinado o modo como consumimos, verificadas as razões por que consumimos e estudado o impacto que o nosso consumo tem no planeta, concluiu-se que gastamos bens de uma forma absolutamente insustentável.
Feitas as contas, verificou-se que são precisos três planetas para saciar o consumismo global pois os recursos da Terra já não são suficientes. Para evitar o pior, impõe-se construir uma sociedade que gaste menos do que aquilo de que pode dispor.

Para o Worldwatch Institute, o consumismo, que exclui os pobres, prejudica também os ricos. Entre “as enfermidades do consumismo”, regista-se a obesidade (“Cuidado as nossas crianças estão gordas” dizia a manchete da edição desta semana da revista “Visão”), que afecta gravemente os extractos sociais que dispõem de maiores recursos.

É certamente verdade que o aumento do consumo tem ajudado a satisfazer necessidades básicas e a criar novos empregos, como foi observado na sessão de apresentação do relatório. O problema reside no “apetite consumista sem precedentes” que, desde logo, “destrói os sistemas naturais de que todos dependemos e torna ainda mais difícil que os pobres satisfaçam as suas necessidades elementares”. O paroxismo consumista faz com que, por exemplo, nos Estados Unidos da América, haja muitos mais automóveis do que pessoas autorizadas a conduzi-los.

As contas do Worldwatch Institute, semelhantes, aliás, às de outras organizações internacionais, indicam que apenas 12% das pessoas que vivem na América do Norte e na Europa Ocidental são responsáveis por 60% do consumo mundial e que os habitantes do Sudeste Asiático e da África Subsariana representam 3,2% desse consumo. Inquiridos para se saber se afinal estão satisfeitos com a vida que têm, os habitantes Estados Unidos da América, apesar do seu poder de compra, não se mostram, na sua maioria, muito felizes.

Para ajudar a compor o estado das coisas, o Worldwatch Institute apresenta um conjunto de propostas simples.

A primeira sugestão é a de uma reforma tributária para criar ou, em alguns casos, para generalizar os impostos ecológicos. As empresas que provocam danos ambientais devem ser fortemente taxadas para que rapidamente se empenhem em minimizar o impacto negativo das suas actividades.

A segunda medida reclama a aprovação do que se pode designar por leis de retoma ou de recolha. Estas leis, já em vigor em alguns países, obrigam as empresas a reaver os produtos que chegam ao fim do seu ciclo de uso e a reciclá-los. Deste modo, evitava-se o hábito consagrado de usar e deitar fora. Para um conjunto residual de casos, reservava-se o recurso à sua incineração. O combate pela durabilidade dos produtos é o terceiro ponto da lista de prioridades do Worldwatch Institute, que quer que as indústrias se responsabilizem por encontrar caminhos para tornar os produtos mais duráveis e de mais fácil reparação ou de mais simples “upgrade”.

O combate por uma qualidade de vida planetária, no entanto, só é possível se houver uma atitude de responsabilidade pessoal. O Worldwatch Institute lembra que a mudança de práticas de consumo requer, amiúde, a alteração de milhões de decisões individuais, a começar pelas mais comezinhas.

Como o Instituto observa, as pessoas são capazes de alterar facilmente os seus hábitos desde que eles concorram, a curto ou a médio prazo, para uma melhoria das suas vidas. Contudo, quando a mudança de hábitos se impõe como uma condição para endireitar o rumo do planeta, tudo se torna demasiado difícil. O que sucede, diz o Worldwatch Institute, é que as avaliações do estado do mundo se apresentam, frequentemente, como irreais, isto é sem uma relação directa com o nosso dia-a-dia.

Uma grande parte da degradação ambiental, por exemplo, não pode ser observada e, portanto, quase ninguém se confronta com as consequências mais perni-ciosas que decorrem do nosso padrão de consumo. Sendo imperiosa uma mudança de rumo, importa que as indústrias, os governos e os cidadãos cumpram a parte que lhes diz respeito.




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