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A Europa… “cristã”!…

Qu´importe à Dieu le prestige, la dignité, la science, si tout n´est qu´un suaire de soie sur un cadavre pourri?…
(Bernanos)

N/D
18 Jan 2004

Muito se tem escrito sobre a Europa nos últimos tempos a respeito da introdução ou não de “raízes cristãs” na futura Constituição europeia.

Seja como for, nesta Europa – com 80% ainda de cristãos baptizados – , nem sempre a confessionalidade tem sido considerada importante, nem consciente, sobretudo na óptica de certos políticos. Mas uma coisa é ter sido baptizado, e outra viver o cristianismo, alimentar-se dos seus princípios.

Com mágoa, teremos de admitir que esta Europa se tornou pagã, ou vive em anemia cristã, e muitos dos seus elementos ou agentes perderam muito da militância que ser cristão significa e implica, remando ou resistindo contra a maré…

Em 1871 já Dostoiewsky notava no seu diário: “A Europa perdeu Cristo, e por isso morre a Europa”. Trata-se, como em muitas fases da História, de uma luta espiritual entre o Bem e o mal, verdade e erro… Vive-se uma espécie de guerra espiritual entre poderes seculares endeusados e forças espirituais autónomas e paralelas.

Apesar de serem baptizados, mesmo os políticos, a maior parte dos europeus ignora a nossa doutrina social, embora a nossa cultura e a Religião estejam marcadas pelo Cristianismo e sinais cristãos: as leis, escolas, igrejas e claustros são os seus testemunhos mais patentes. Mas para uma certa clique política, agnóstica até por conveniência, isto não conta nada, e querem ignorá-lo, prostergá-lo, ou esquecê-lo.

A própria Igreja sofre, e não é levada a sério nem tida na devida consideração. Quem se confessa cristão, é uma minoria, perante uma comunicação social mais preocupada com algumas sombras do que com as luzes de pirilampos desiludidos ou iluminados… Para alguns, seria necessário provocar o caos social e moral, ou deixar cair tudo, para que se apercebam praticamente dos erros das ideologias e dos egoísmos instalados, ilusões e fracassos em que caíram, e depois se levantarem. Só uma maioria de crentes conscientes e de sólida formação poderá fazer barreira a tantas situações e lutas contraditórias.

Este tempo apela-nos a renascer das nossas origens. Muitas vezes nem nos apercebemos do que se vai passando, nem temos tempo para reflectir. Fazemos o que nos agrada no imediato, tresmalhamo-nos nas redes do que vemos e ouvimos, o “politicamente correcto” é o aprovado, o banal e o anormal torna-se a norma, como o exótico, a última regra de actuação social ou moral.

No essencial, verifica-se que a alma da Europa morre, o centro é absorvido pelo marginal, onde Deus é trucidado, ou visto como ameaça numa tolerância moral permissiva, multicultural ou confessional, onde o mais importante se asfixia. Enquanto uns estribam as suas convicções, outros deixam estiolar as raízes… E este Portugal, com tudo tão superficial?!

Rheinold Schneider dizia que não se pode acreditar num Cristo a meias, o que nos cria um gosto liberal de empobrecimento amorfo. O problema é tão velho como o Cristianismo e não nos levará a nada, se não reconhecemos que Ele incarnou e se fez Homem, e assim se entende que ser cristão e vida cristã é ser mensageiro e testemunho do Homem-Deus: Fé, Igreja e Vida devem formar uma unidade, nem que se tenha de abolir muito aparato exterior ou triunfalista, que se introduziu como ganga, ou um “accionismo” que devia ser suplantado por mais reflexão. Por vezes, fala-se e discute-se demais uns com, contra e sobre os outros, sem um debate sério em plenitude, onde tudo brilhe no conjunto.

Não será esta uma das grandes deficiências, tanto de leigos, políticos, como de sacerdotes? Não estaremos todos mais preocupados em defender aparatos do que realidades cristãs ou seculares? Com outra estratégia e vida, talvez não sentíssemos as consequências. De quem, a culpa?!…




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