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Os terríveis genes do Sr. Zé Maria

1) De Orwell a Zé Maria Mesmo aqueles que, como eu, detestam concursos do tipo “Big Brother”, mesmo esses acabam por ficar a conhecer alguns dos concorrentes neles participantes. É que, a certas horas, os canais de TV não falam mesmo de outra coisa; e quem tenha o azar de ter o aparelho ligado, fica sujeito a ter de presenciar uma sequência interminável de personagens, cenas, comportamentos e frases banais, ou mesmo abaixo desse nível.

N/D
16 Jan 2004

Daí que não haja ninguém neste país que não conheça o sr. Zé Maria, de Barrancos, vencedor do primeiro “Big Brother”, concurso sem graça nenhuma que usurpou e deturpou um nome e um importante conceito, tirados da obra do escritor inglês nascido na Índia, George Orwell (1903- -1950). Tal qual a abreviatura PC (“personal computer”) usurpa hoje o espaço cultural que nas línguas latinas (francês, italiano, português, espanhol, etc.) era exclusivamente associado a “partido comunista”. Mas isto são escaramuças de uma muito mais vasta guerra cultural, que hoje não é para aqui chamada.

2) Glórias barranquenhas

Foi o famoso guerreiro portuense Gonçalo Mendes da Maia (o Lidador) que em 1167 conquistou a região de Barrancos aos intrusivos e exóticos colonos marroquinos. E foi o rei D. Sancho I que, por 1200, a repovoou. A Ordem militar de Avis aí construiu também o castelo de Noudar (em 1346).

É em Barrancos que se fala o barranquenho, que a par do mirandês é uma das únicas variantes europeias do português que merecem integrar a categoria do dialecto. A região é bastante “sensível”, pois é uma espécie de “testa-de-ferro”, de “promontório seco” do território português que se adentra por Espanha, ainda por cima imediatamente a sul da região de Olivença-Cheles-Alconchel, único ponto da raia luso-espanhola que falta delimitar entre os dois países. E é por motivos como estes, que nunca se devia desrespeitar uma das duas principais tradições da vila, os “toiros de morte” (a outra tradição é a fogueira de Natal).

Glórias mais recentes do concelho são o corredor de fundo Paulo Guerra, um atleta magro e arruivado, campeão e ex-recordista europeu. E o ainda mais magro Zé Maria, de quem estamos a falar.

3) Zé Maria contra António Maria

A despropositada campanha contra a especificidade taurina daquele concelho raiano do Alentejo bem podia ser apelidada de “Guerra de António Maria contra Zé Maria”. E isto porque um dos seus principais promotores, um dos principais “car-voeiros”, ou “carbonários”, desta nova espécie de fogueira inquisitorial (agora de esquerda-liberal e contra uma tradição, a barranquenha) tem sido o advogado lisboeta António Maria (Pereira). E a figura mais mediática do concelho (mais ainda que Paulo Guerra e que o autarca António Tereno) é o citado Zé Maria; que tanto quanto se sabe, não se opõe a que o semi-selvagem quadrúpede cornudo morra “in situ pugnae”… Ironia também é a de a dignidade e a pseudo-dignidade dum animal tão corpulento e perigoso como o touro ser defendida por um jurista de constituição física tão franzina, mais ainda que a de Zé Maria, a popular estrela “neo-orwelliana”. E é sobre este assunto específico que vamos continuar a falar.

4) Genes muito perigosos

Queria agora participar-vos os meus fundados receios sobre as potenciais consequências das provocações mediáticas ao povo barranquenho. E também das que podem advir das perigosas insinuações sobre a personalidade do sr. Zé Maria.

Os (e as) cronistas da especialidade andaram meses a fio a especular sobre a conformidade mental do sábio moço barranquenho, a propósito da sua vocação, por assim dizer, ganadeira, sublimada na criação de galinhas (que outra espécie seria mais adequada ao exíguo espaço da casa do “Big Brother”?). Depois, insinuaram hipóteses de que as suas inclinações no campo da sensualidade seriam desviantes e antinómicas daquelas que têm permitido ao longo dos milénios a perpetuação de todas as raças e espécies, inclusive as humanas, as taurinas ou as galináceas. Ora, penso eu, não se deve provocar os barranquenhos. É que, mesmo ao lado de Barrancos, do lado de lá da fronteira, fica a perigosa Extremadura espanhola, pátria de quase todos os Conquistadores e também dos genocidas dos índios das Américas… Um barranquenho é quase o mesmo que um extremenho. E um extremenho é o produto final do cruzamento entre uma data de povos guerreiros: o matreiro e frugal lusitano, o duro e sistemático romano e o poderoso e aristocrático visigodo. Mas se não acreditam, vejam só a seguinte lista.

5) Zé Maria, parente chegado de Pizarro e de Cortés

Pois é, mesmo ao lado de Barrancos fica a bela Jerez de los Caballeros, terra natal do ruivo Vasco Nuñez de Balboa (1475-1519), conquistador do Panamá e o primeiro europeu a avistar o Pacífico. Da mesma Jerez é também Hernando de Soto (1499?-1541) que participou na conquista do Peru e da Nicarágua e que explorou a Florida e o sudeste do que é hoje os EUA, descobrindo o rio Mississipi.

Mas continuemos. Em Badajoz nasceram, entre outros, Pedro de Alvarado (1458-1541), conquistador da Guatemala e de El Salvador; e o capitão Garcilaso de la Vega, “herói” do Peru e pai do conhecido escritor. Na comarca de La Serena, nasceu Pedro de Valdivia (1498-1554), o conquistador do Chile. Já a cidade de Cáceres foi o berço de Godoy, de Cano de Saavedra e sobretudo de Garcia Holguín, o capitão do navio que finalmente aprisionou o heróico Cuauhtémoc na lagoa do México. E foi em Brozas (Cáceres) que nasceu o frade-conquistador Nicolás de Ovando, governador da ilha espanhola (Haiti).

Mas como os últimos são os primeiros, lembramos que Medellin, às margens do manso Guadiana, foi o berço do benfazejo e suave conquistador do México, Hernán Cortés (1485-1547); e também dos seus lugares-tenentes Sandoval e Puertocarrero. Já na cidade de Trujillo (Cáceres) nasceu o não menos suave e benfazejo conquistador do Peru, Francisco Pizarro (1475-1541). Além de Francisco de Orellana (1490-1546), o descobridor do curso do rio Amazonas e fundador de Guyaquil. E da mesma Trujillo é também Nuflo de Chaves, fundador de Santa Cruz, na actual Bolívia, em cuja província haveria de morrer Che Guevara em 1967.

Portanto, e em resumo, dr. António Maria Pereira e amiguinhos da “Animal”, cuidado com os barranquenhos, que eles são extremenhos… E cuidado com o económico arcabouço e as falinhas mansas do sr. Zé Maria. “Cave barranquenses, cave Josephum Mariam”!…




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