Fotografia:
A cultura do faz de conta…

Estamos no apregoado século da ciência, do desenvolvimento, da (esperada) democracia global, do conhecimento e cultura. E vivemos numa cidade onde estes pergaminhos são, contudo, obnubilados pela câmara local. Uma câmara que dá pelo nome de CMB… Sim! Adivinharam! É a Câmara Municipal de Braga.

N/D
16 Jan 2004

Mas, perguntará o cidadão mais despreocupado, porquê esta crítica tão violenta, especialmente agora no final de uma estação tão cheia de animação cultural como foi o Verão – de facto, não faltaram as habituais mini-sessões de cultura (e digo minis pela seu carácter mais ou menos espontâneo, e não com qualquer sentido depreciativo). Contudo, uma questão me assalta: é isto a política cultural da edilidade?
E é a partir desta questão/premissa que parto para concluir pela insuficiência/ineficiência cultural na nossa amada cidade. Não tenhamos dúvidas: a cidade de Braga (ao que todos os dados indicam ser a terceira do país) tem de possuir uma plataforma cultural abrangente, convocatória e no mínimo grandiosa. Ora daqui se poderia partir para citar a CMB: «impossível»; não que esta o afirme explicitamente (sobretudo aos microfones da imprensa), mas antes o que dos seus actos concluímos. Senão vejamos:

– Não quero de forma alguma desmerecer os esforços que resultaram no “Bragajazz”, no “Mimarte” ou no “Espaço Cultural Pedro Remy”; pelo contrário, são louváveis! O que pretendo é revelar o que em vinte e cinco dinossáurios anos foi esquecido ou simplesmente ignorado. Aqui insiro os critérios da tal plataforma cultural acima descritos, que se podem considerar imprescindíveis:

1) Abrangência: como sabemos, 170.000 habitantes perfazem uma série de sensibilidades culturais (não só numéricas, mas fundamentalmente decorrentes de diferentes idades, modos de ver o mundo e diferentes experiências, requeridas ou já tidas), como tal não sendo plausível pedir 170.000 sensibilidades por parte da edilidade, temos que exigir que esta, pelo menos, as considere aquando da programação dos eventos culturais;

2) Convocação: à imagem duma recente convocatória por parte do Governo para o Euro 2004, poderia o executivo camarário seguir-lhe o exemplo e convocar os seus concidadãos para o projecto cultural, desta vez não somente pela Internet como aquando do período de apresentação de propostas para o projecto Capital da Cultura Nacional/Europeia (que transformou este processo numa material virtualidade que não passou das fronteiras da “web”), mas aproveitando os meios informativos de que dispõe (será assim tão dispendioso publicar, por exemplo, o projecto da Capital da Cultura?);

3) Grandiosidade: desde já explícito esta expressão, não vá o Eng. Mesquita Machado pensar em mais algum empreen-dimento disparatadamente dispendioso como o estádio. O que pretendo significar com esta grandiosidade é caminhar no sentido da elevação cultural da cidade, não só dos espectáculos que por aqui vierem a passar mas, principalmente e mais importante que tudo, dos seus cidadãos. Bem sabemos que dentro das competências das câmaras municipais não se encontra a de ensinar; contudo, não é isso que se pretende. Por que não apostar nas escolas, todas elas, promovendo concursos que façam despontar a criatividade dos alunos e lhes dê a noção de serem importantes, úteis e valorizados para e pela sociedade, atribuindo-lhes prémios simbólicos ou oferta de livros escolares ou outros. Estou a falar de concursos de bandas, de pintura, de escrita…, possibilitando aos vencedores visibilidade nos principais espaços da cidade – leia-se parque de exposições -, nos principais museus e em cativantes saraus literários na biblioteca, espaço tão injustamente negligenciado pela maior parte dos bracarenses. Não nos parecem nem incomportáveis, nem impossíveis.

Cabe ainda destacar a total inoperância da outra grande instituição da cidade – a Universidade do Minho – e, cumulativamente, da respectiva Associação Académica. É que se a Câmara “sacode” as suas responsabilidades em matéria de cultura sob a desculpa de não ser acusada de comportamento censurador, a UM refugia-se na subsidiodependência, queixando-se da falta de verbas. É pena que uma instituição que se tem vindo a valorizar tanto e tão bem academicamente descure um domínio tão importante para si própria como é a da cultura. Quanto à Associação Académica da UM, mostra-se ainda mais amorfa reservando a sua aparição aos cíclicos “Enterros da Gata” e alguns protestos que mal se ouvem (leia-se a constante súplica por uma nova sede que teima em não arrancar).

Impõe-se recordar singelamente o programa do governo para a área da cultura que passamos a citar:

«O conjunto de responsabilidades no domínio cultural deve ser partilhado com os agentes e criadores culturais e com as autarquias locais, universidades, fundações, empresas e outras instituições, bem como com os particulares». Ao trabalho global e concertado entre estas três instituições – CMB, UM e AAUM – apenas posso responder com um irónico e profundamente triste “obrigado” e deixar
-lhes um desejo tão sincero quanto crítico: «entendam-se» para bem da cidade, da sua reputação, gentes e cultura.

Finalmente, tenho ainda que advertir a edilidade para não se congratular apenas com a obra já feita. A este propósito, tenho até que sugerir ao Eng. Mesquita Machado uma curta (pois não deverá ser do seu agrado) mas pelo menos esclarecedora visita ao site www.projectobragatempo.net, onde poderá recordar algum do espólio arquitectónico (também cultura) que ao longo dos anos conseguiu destruir. Terminando, peço que a Câmara Municipal de Braga seja um pouco mais ponderada e séria quando apresenta projectos como o da candidatura para a Capital Nacional/Europeia da Cultura. Que, por um lado, o apresente de facto aos seus cidadãos (limitar-se a somente depositar um projecto deste calibre na Internet esperando que alguém por acaso o encontre não se afigura como a alternativa mais credível ou sequer mais adequada); por outro, que pense bem antes de inscrever um espaço tão exíguo e com uma falta de condições tão gritante como é o caso do “Espaço Alternativo PT” num projecto que deve merecer o maior respeito de todos os envolvidos.

Lembre-se que, institucionalmente, representa a cidade e não a sua pessoa; portanto, represente-a com a dignidade que ela (cidade de Braga) merece.




Notícias relacionadas


Scroll Up