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Perfilados de tristeza

Os livros sagrados são um instrumento delicado de manusear. Tanto são complexos tomados à letra, sem qualquer enquadramento, como destilados pelas longas análises dos vários especialistas. Podem ser utilizados para mergulhar no pensamento e na revelação de Deus, como também na simples confirmação do que já pensam e dizem os homens. As confissões religiosas e os apologetas de horizonte estreito, correm sempre riscos de manipular o pensamento de Deus segundo as conveniências de cada momento.

N/D
15 Jan 2004

Mas – e para falarmos do caso concreto da Bíblia – há narrativas que não têm fuga, nem desvio possível, seja qual for a escola hermenêutica em que se filie o intérprete. Há verdades fundamentais que atravessam, como fios luminosos, a criação, a queda, o itinerário errante de um povo, os exílios e cativeiros, as terras prometidas, os cânticos de festa, a relação constante com o Deus transcendente e próximo.
Houve, na história do povo hebreu, tempos amargos, depressões colectivas, fatalismos de abandono. Vencido e humilhado, muitas vezes chorou, junto aos rios da Babilónia, voltado nostalgicamente para as colinas de Sião. Nesses tempos de abatimento e pranto, surgiram sempre, com voz firme e convincente, os profetas, pedindo um olhar mais rasgado, sugerindo uma expectativa, oferecendo uma esperança, recusando sempre o desespero como epílogo da história. E, finalmente, abrindo o caminho da parusia como pórtico de saída para todos os becos da história.

Nos tempos que precederam o Messias, os céus pareciam definitivamente fechados. Com o baptismo de Jesus «abriram-se os céus» e novos horizontes se rasgaram para toda a história.

É importante discernir os sinais para melhor se ler os acontecimentos que perturbam o olhar imediato dos homens e mulheres, mergulhados na perplexidade desconcertante dos nossos dias. Precisamos, por isso, recorrer ao mistério das etapas percorridas pelos que nos precederam na heroicidade e no pecado, na incerteza como na redenção.

Como povo, parecemos cabisbaixos, sem perspectiva, conformadamente atarracados, sem a ousadia de olhar mais alto. Onde estão os profetas «que noutros tempos nos enxugaram lágrimas e nos deram ânimo para o caminho»?

Estão no meio de nós, nos campos e nas cidades. Importa dar-lhes voz para que não fiquemos sufocados na gritaria mais estridente que nos rodeia, nem embriagados pelos perfumes de roxo de tantas flores que nos jogam. Esses profetas estão afinal dentro de nós, à espera de vez para nos falar.




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