Fotografia:
O renascimento das tradições tchekistas

Regressam na Rússia os velhos métodos soviéticos contra os opositores do poder. O caso mais recente é o do advogado Mikail Triepachkin, que se empenhou em esclarecer se os atentados bombistas de 1999 em Moscovo e Wolgodonsk foram uma provocação dos serviços secretos russos e fez perguntas incómodas para as autoridades sobre o massacre no teatro moscovita em 2002. Em defesa da concentração do poder operada pelo presidente Vladimir Putin, os seus companheiros da KGB revelam-se herdeiros fiéis das tradições tchekistas.

N/D
13 Jan 2004

Os atentados bombistas em Moscovo e Wolgodonsk coincidiram com a subida de Putin ao poder e foram habilmente aproveitados pelo ex-agente da KGB como trampolim nesta ascensão. Vladimir Putin anunciou imediatamente tratar-se de obra de tchetchenos e desencadeou em consequência uma implacável “pacificação” da Tchetchénia.

À volta destes atentados surgiram, todavia, desde o início, muitas dúvidas. Dúvidas tornadas públicas principalmente graças a Mikail Triepachkin, então oficial das FSB (Serviços de Segurança da Federação Russa, os herdeiros em linha directa da KGB), que tentou investigar o caso. Surgiram indícios da responsabilidade das FSB a nível central: em Wolgodonsk, agentes da FSB que desconheciam estes planos caíram no rasto dos seus colegas de Moscovo quando estes se preparavam para fazer ir pelos ares um prédio habitacional.

Para calar Triepachkin, as autoridades afastaram-no do caso e empurraram-no para a reforma. Mas este não quis abandonar o que tinha começado e depois de deixar as FSB abriu um escritório de advocacia e continuou a contactar as famílias das vítimas do atentado. Alguns dos familiares decidiram exigir indemnizações às autoridades e o retomar das investigações para o esclarecimento de todas as dúvidas.

Triepachkin interessou-se igualmente pelas circunstâncias do ataque das forças especiais no teatro de Moscovo, no qual em consequência do uso de gás morreram 125 reféns. Até hoje as investigações da procuradoria sobre o caso continuam em ponto morto. O advogado começou a ajudar as famílias das vítimas do teatro, que começaram a exigir também indemnizações. A reacção das autoridades não se fez esperar: quando em Outubro passado Triepachkin regressava de um encontro com os familiares de uma das vítimas, uma patrulha de polícia mandou-lhe parar o carro. Enquanto um dos funcionários lhe pediu os documentos, outro revistou o automóvel, para rapidamente “encontrar” cartuchos que justificaram a detenção do advogado. Na prisão foi acusado de colaborar com os serviços secretos britânicos.

Em fins de Dezembro Triepachkin conseguiu fazer chegar, da prisão onde está igualmente detido o magnata Mikail Codorkowski, à Fundação das Liberdades Civis um bilhete em que informa ter sido entre 30 de Novembro e 20 de Dezembro submetido a torturas com requintes dignos da velha escola da NKVD: impedido de dormir, sem água e comida durante 48 horas, mantido no gelo durante horas e algemado em posições incómodas durante dias inteiros.

Em conferência de imprensa, o chefe da Fundação das Liberdades Civis, Aleksander Goldfarb, diz tratar-se de mais um caso revelador do regresso aos métodos aplicados sob o regime soviético aos dissidentes. O julgamento a portas fechadas impossibilita a defesa de Triepachkin e os protestos contra a tortura ficam sem qualquer efeito.

O regresso à perseguição daqueles que se atravessam no caminho do poder segundo os métodos da KGB não é um fenómeno estranho na Rússia de hoje. Putin, que nos quadros da KGB chegou a coronel, rodeia-se de gente da sua formação e os “espe-cialistas” da Lubianka não abandonaram os hábitos que tinham, chamando a si próprios com orgulho “tchekistas”. Entre outros, é destes meios que vem o ministro da Defesa Siergiei Ivanov, o secretário do Conselho de Segurança da Rússia Vladimir Ruchailo, ou o chefe das FSB Nikolai Patruchev. Quatro anos depois da ascensão de Putin ao poder, um em cada quatro funcionário dos ministérios e administração central é um ex-KGB ou ex-militar, os chamados pelotões “de força”, que asseguram a consolidação do poder de Putin com mãos de ferro.




Notícias relacionadas


Scroll Up