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No rescaldo da guerra do Iraque: afirmações de alguns bispos locais

O que sabemos do Iraque? Nós, ocidentais, alimentamos muitas vezes ideias preconcebidas sobre os povos e as civilizações que diferem dos nossos quadros mentais. E ajuizamos os outros segundo os pontos de vista que temos, esquecendo que os critérios e as circunstâncias que presidem à vida não conhecem a mesma origem e podem ter significados bem diferentes.

N/D
13 Jan 2004

Por exemplo: com certa verdade, estamos convencidos de que sob o regime de Saddam se vivia uma ampla liberdade religiosa, respeitadora da minoria cristã. Contudo, quando lemos algumas entrevistas recentemente concedidas a membros da hierarquia, somos surpreendidos por afirmações que nunca suporíamos possíveis se o mesmo regime – que até tinha como vice-primeiro-ministro um cristão – não pertencesse ao passado desde há alguns meses.
Recentemente, a Agência Asia News, da iniciativa do Instituto Pontifício para as Missões Estrangeiras (Milão), recolheu algumas palavras de D. Rabban al Qas, bispo no norte do Iraque, que considera que cerca de 80 por cento da população iraquiana vê as forças da coligação como libertadoras, embora não possa aprovar todos os passos dados, já que – acrescenta – «o Iraque necessitava de uma ajuda exterior».

O mesmo membro da hierarquia observa ainda que, apesar da imagem de tolerância que o regime deposto promovia, «sob Saddam Hussein, a Igreja e o povo sofreram juntos. Sob este regime ditatorial, todos fomos perseguidos: cristãos, xiitas, árabes, curdos, sírio-caldeus», etc. E recorda que em 1975 o governo de Saddam confiscou todas as escolas do país, de entre as quais havia 34 cristãs.

Felizmente, o actual governo provisório – no qual se encontram dois cristãos – decidiu devolver os edifícios então confiscados, a fim de garantir a liberdade de ensino no país. Também menciona outro facto pouco abonatório da tolerância religiosa do anterior regime: em 2002, Saddam mandou suprimir dos documentos de identidade todos os nomes cristãos e ordenou que só se usassem os do Corão; além de que os filhos das famílias mistas eram por lei muçulmanos até aos dezoito anos. Se nesta idade pediam o registo de outra filiação religiosa, os funcionários retardavam com frequência a concessão.

D. João Benjamim Sleiman, arcebispo de Bagdad para os católicos de rito latino, lembra que o ministro Tarek Aziz não era membro proeminente do governo do ditador por ser cristão, mas apenas por se tratar de «um grande amigo de juventude de Saddam, com quem efectuou algumas matanças nos seus primeiros anos de acção. Devo dizer que com frequência a minoria cristã obtinha concessões não por intermédio de Aziz, mas de outros ministros muçulmanos. Recordo, por exemplo, o caso de um livro escolar que continha afirmações ofensivas para o cristianismo: Aziz nada fez perante os nossos protestos. Foi um ministro muçulmano que ordenou que se retirassem».

Sobre o futuro democrático do Iraque, o bispo de Mossul, D. Luís Sako, em entrevista concedida a um jornal italiano em Outubro passado (Il Foglio), pensa que «um Iraque que seja locomotiva democrática na zona não agrada à Arábia Saudita, ao Irão, à Síria, ao Egipto e aos países vizinhos», porque conceder «direitos civis às minorias não árabes, a liberdade religiosa e a reforma da justiça poria em discussão o poder em que se apoiam tiranias atávicas e eficazes sistemas de repressão».

Daí ser sua convicção de que a instabilidade que se semeia diariamente no país «não é apenas obra de iraquianos, mas, sobretudo, de forças procedentes do exterior».

Por fim, o novo patriarca da Babilónia (cristãos caldeus), Emanuel III Delly, declarou que «os cristãos do Iraque, mesmo tendo muitas necessidades materiais, necessitam principalmente de orações». Uma vez alcançada a paz e a estabilidade, não haverá problemas no país: «cristãos e muçulmanos viveram juntos durante 1.500 anos».




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