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Abandono de crianças – Um rosto de outros dramas

De acordo com um levantamento feito pelo Governo foram registados no ano passado 730 casos de abandono infantil. A mesma fonte revela ainda que no mesmo período houve cerca de 5.500 pedidos de acolhimento institucional de crianças.

N/D
13 Jan 2004

Esta negra realidade dá que pensar! Que motivos podem levar os pais biológicos a desprezar um filho ao ponto de o abandonar? A pobreza económica é sem dúvida uma causa importante para este flagelo. Não é a única e outras há que se revestem de grande relevância. Níveis culturais muito baixos, toxicodependência e alcoolismo são por certo outros factores associados a este drama. Estes por sua vez entroncam em razões mais profundas resultantes em boa parte das grandes alterações verificadas na sociedade portuguesa nas últimas décadas.
A migração dos campos para as cidades e a urbanização galopante sem planeamento conduziram ao desenraizamento de grandes fluxos populacionais com consequências desastrosas de que o abandono infantil é apenas uma face de muitos outros dramas sociais.

Ao lembrar que nos períodos de crise económica as situações de miséria acabam por penalizar os mais débeis – crianças, mulheres e velhos – encontraremos mais um motivo para explicar os números agora revelados de abandono de crianças. Outras avaliações similares no campo da prostituição e delinquência chegariam a resultados semelhantes.

A nova lei da adopção ao agilizar um processo que pela sua natureza tem que ter alguma morosidade veio tentar dar resposta ao abandono infantil. No entanto, por si só, esta medida apenas poderá minimizar o problema que é muito mais complexo e carece de intervenção a outros níveis.

Ninguém terá dúvidas que a melhor forma de uma criança crescer e desenvolver todas as potencialidades é no seio da família natural. Que na falta desta, uma família de adopção será a melhor alternativa, desde que para isso tenha apetência e reúna as condições indispensáveis para o fazer.

Mas que não haja ilusões. Há muitas crianças a viver institucionalizadas que nunca terão essa sorte.

Por múltiplas razões: por possuírem são doença crónica, já terem passado a idade mais adequada para serem encaminhadas para adopção, serem menos dotados ou até porque a natureza não os bafejou com as características das mais procuradas. Estas terão que continuar a viver em estabelecimentos de acolhimento e a prepararem-se o melhor possível para a vida. Espalhadas um pouco por todo o país existem casas modelares que prestam este serviço e na impossibilidade de substituírem na íntegra uma família bem estruturada tentam aproximar-se dela. São bons exemplos de como é possível minorar uma desgraça, que seria por certo bem maior sem a sua existência. Ainda bem que estas instituições existem prestando um serviço insubstituível às crianças e à sociedade.

Não são um mal necessário, mas um bem que devemos apoiar e acarinhar, já que se vão mantendo fruto de trabalho, de muito amor e de grande generosidade.

Cabe ao Estado, à sociedade civil e a cada um de nós contribuir para debelar as causas de abandono de crianças e de outros cancros sociais que corroem o presente de muitos e arruínam a esperança de um futuro melhor.




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